17/10/2017

Por que decidi criar um perfil separado para o blog no Instagram?

Perfil separado pro blog no Instagram
Foto por Wokandapix
Alguns meses atrás, depois de pensar bastante a respeito do assunto (porque né, eu sou eu e tudo tem que ser pensado nos mínimos detalhes), criei um perfil no Instagram pro 31 de Março. Fiquei um bom tempo pensando se deveria ou não fazer isso, e mesmo depois da criação do perfil, continuei pensando se deveria ou não usar. A ideia de manter as coisas separadas  um perfil pro blog, outro pra minha vida pessoal  não me agradava muito. Li a opinião de várias blogueiras sobre o assunto, e a maioria repetia o mesmo discurso: o blog que escreviam faz parte da vida delas tanto como qualquer outra coisa, e por isso, não tinham como separar uma coisa da outra. Ou seja, aquilo que era para ser compartilhado com os leitores do blog também era para ser compartilhado com família e colegas de trabalho, não existindo diferença entre uma coisa e outra. Mas eu não consigo ver dessa forma.

12/10/2017

Uma homenagem a perda de tempo que é a literatura

Literatura Perda de Tempo
Foto por StockSnap
Tenho um amigo que diz sentir que está perdendo seu tempo quando lê um livro de literatura. Sim, livro de literatura. Esses livros mesmo, que contam histórias, que criam mundos novos, que te levam pra lugares onde você não conseguiria ir, se não tivesse imaginação pra te levar. Esses livros que nos desafiamos a ler dez em um mês, e que fazemos maratona de leitura, porque sabemos que um bom leitor vive mil vidas antes de morrer.

Durante algum tempo, ainda um pouco deslumbrada com o universo dos livros acadêmicos, das teorias e do conhecimento aleatório sobre qualquer coisa, me deixei levar por essa ideia. E sentindo também que estava perdendo tempo, deixei os livros de literatura de lado, porque afinal, não me acrescentariam "nada" de "útil". Eu caí no velho dilema da utilidade, do sentido e do propósito.

Nesse momento, você, que é leitor (e leitora) e que acompanha minhas abobrinhas há anos, acostumado a ler Douglas Adams todo Dia da Toalha, me olha com descrédito diante de tamanha desonra. Sim, desonra, pra tua vaca e pra tua família, e que Mushu me perdoe. Você olha e se pergunta como eu pude me tornar herege e acreditar nessa bobagem. Como tornei isso possível, não sei dizer, mas por sorte, a literatura sempre nos traz de volta.

Uma ficção aqui, outra ali, entre um clássico e outro da literatura — finalmente li A metamorfose e O Médico e o Monstro — eis que resolvo reler A sombra do vento (saudades Zafón <3). E não é que eu estava carregando esse livro só pra tentar convencer o amigo em questão de dar uma chance pra ele? Sentei um minutinho pra relembrar a história, antes de (tentar) fortalecer o espírito do livro o trocando de mãos, e eis que eu estava de volta a Barcelona com Daniel Sempere e O Cemitério dos Livros Esquecidos, e eis que também me lembrei do prazer de ler uma história.

Já dizia Fernando Pessoa que a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida, e usando A sombra do vento como escapismo puro e simples, percebi o quanto sentia falta de mergulhar em uma leitura, sem a pretensão de aprender alguma coisa, sem a pressão de absorver algum conteúdo, e principalmente ler sem me preocupar se eu entendi ou não o último parágrafo. Ler apenas, sem nenhuma cobrança ou preocupação.

Pegando A Sombra do Vento depois de tantos anos, reencontrei não só as palavras de um autor que eu admirava, como também uma velha versão de mim, crescendo no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó... Quem perdeu tempo lendo Zafón vai reconhecer a citação, assim como quem perdeu tempo lendo Conan Doyle vai entender que não devemos nos entulhar com conhecimento que não nos vai ser útil. Entendendo ou não a constante cosmológica da equação de campo de Einstein, ela não vai se alterar. Não vejo utilidade em absorver esse conhecimento, e entre uma perda de tempo e outra, prefiro a perda de tempo que eu gosto.

Nós, leitores, já compreendemos que a literatura é uma mentira que fala a verdade, que não tem bichos na Quinta Manor e que Jekyll e Hyde somos nós mesmos. Já sabemos que faz parte da humanidade contar uma história, e que desde a Pré-história, é assim que aprendemos. A gente entende a literatura que fala do coração e da alma, e que, se conhecer um Hobbit que sai pra viver uma aventura; acompanhar uma menina que rouba livros em meio a um cenário de guerra; rir de um mochileiro que viaja pelas galáxias; questionar o sistema com um clube clandestino de luta é perda de tempo, então, esse tempo vale a pena ser perdido. E eu continuarei, com orgulho, perdendo meu tempo com literatura. 


21/09/2017

A Descida

A descida

No chão, um buraco profundo e escuro, como um poço. Enorme, ocupava quase a vila inteira. Sua outra metade tinha caído lá dentro. Era pequena e frágil, e estava perdida naquele oceano de escuridão. Procurou uma corda para que pudesse resgatá-la. Encontrou uma de suas pontas, grossa, pesada, com centenas de milhares de metros. Deu um nó, e a jogou no poço — a outra ponta estava presa no infinito, atravessando a Terra, impossível de encontrá-la.

A outra metade subiu pela corda, suja e fraca, tremendo e soluçando, balbuciando coisas sem sentido. Sentou-se encolhida no chão. A metade que ficou em cima, a que jogou a corda, a abraçou dizendo palavras de conforto. Tentou aquecê-la com o calor de seu corpo. A metade frágil disse:
— Eu vi coisas inimagináveis.
E a que tinha a força, respondeu:
— Mas agora você está de volta.
— Sim. Mas lá embaixo, perdi meu coração.
A outra, pensando sobre aquilo, já colocando-se de pé, respondeu com confiança:
— Vou buscá-lo.
E a pequena, desesperada, soluçando, sem forças para impedi-la, choramingou:
— Não pode. Você será devorada. Irá se perder. Não encontrará o caminho de volta...
— Eu não tenho medo — retrucou, já segurando a corda para descer — esteja aqui, para quando eu voltar. Cuide da corda.
— Não vá...
— Eu preciso — respondeu, e sem olhar para trás, começou a imensa descida, centímetro por centímetro, com cuidado para não despencar.

No início, sentiu frio. E, a medida que descia, e a luz acima de si tornava-se menor, começou a sentir medo. As paredes do poço eram firmes e gélidas. Não havia nenhum som, e o ar estava pesado. Não via nada abaixo de si. Suas únicas sensações eram as tiras ásperas da corda sob sua pele, e o palpitar apressado de seu coração. A luz tornou-se cada vez menor, um brilho pálido e diminuto acima de si, até extinguir-se completamente. 

Ela continuou descendo e descendo, até chegar a completa escuridão. Encontrou o nó e soube que era o fim da corda. Soltou-se, mas não houve sensação de queda. Não houve sensação alguma, e ela se viu suspensa, incapaz de sentir, ver ou ouvir. Não havia luz, ou calor, nem som. Seu corpo estava adormecido. Não sentia nada em sua pele, nem abaixo dela. Não havia fora, nem mesmo dentro. Ficou completamente só, com seus pensamentos, até não existir mais pensamentos. Até não existir mais nada.

Passou-se um tempo que não era tempo. Horas que não eram horas, até surgir um sussurro, que tornou-se um ruído, até transformar-se em som.

O som tremulou, tomou ritmo e forma. Ganhou luz e começou a brilhar. Recebeu cores, formas e cheiros. Estava vivo, e pulsava. A metade forte voltou a ver, ouvir e sentir, e viu Tudo. Sentiu-se fraca, mas lembrou-se que precisava procurar o coração. Encontrou-o através de Tudo, e segurou-o na palma de sua mão. Guardou no bolso, e Tudo desapareceu. Não havia nada, exceto a memória da metade que esperava lá em cima. Segurou a ponta da corda, e começou a escalar.

Foi subindo, e subindo, e subindo, numa escalada cada vez mais árdua. O coração pesava em seu bolso, e o frio congelava seus ossos. Temeu pela sua vida, acreditou que não conseguiria, mas continuou subindo. Suas mãos sangravam e a corda queimava sua pele. O ar estava frio e congelava seus pulmões. O peito ardia, e o corpo começava a pesar uma tonelada. Mas continuou subindo.

Uma de suas mãos se soltou. Escorregou alguns metros abaixo, e por pouco não se soltou da corda. A mão queimava e ardia, em carne viva. O corpo pendia, suspenso, sustentado por aquela mão tão machucada. Subiria com facilidade se soltasse o coração. Tornaria-se leve e em instantes conseguiria ver a luz. Recuperaria a força que havia perdido, mas a jornada teria sido em vão.

Com dificuldade, segurou a corda com a outra mão. Agarrou-se com força, e continuou subindo, apesar da dor. Estava quase perdendo as esperanças, e sentia que seu corpo iria se desfalecer, quando viu uma minúscula pontinha de luz. Sorriu, e começou a subir cada vez mais depressa. A luz cresceu, e foi crescendo até iluminar todo o poço. Viu sua metade sentada na beirada, esperando. Chegou ao topo e arrastou-se para fora, ajudada por ela. Com dificuldade, sentindo-se fraca e frágil, tirou o coração do bolso e a entregou. A outra o pegou, e o coração aqueceu seu corpo, curando suas feridas e dando cor a sua pele pálida. Estava renovada, e agora, sentia-se forte. 

Olhou sua outra metade, caída no chão, com frio e com medo, as mãos feridas, e ajoelhou-se ao seu lado. Tinha sacrificado sua força para que ela tivesse seu coração de volta. Tornara-se fraca para que ela ficasse forte. Sentiu-se grata. Tocou seus cabelos e ela deixou de sentir frio. Tocou seu rosto e este começou a ganhar cor. As feridas se curaram. Aos poucos, começou a ganhar força, e quando as duas metades tornaram-se fortes, uniram-se em uma só.