30/10/2017

Ser oco

Ser oco
Foto por 56April
Caminhava pelo parque, sozinho. O vento passava direto. Não batia em seu rosto. O perfume das flores à sua volta não impregnava suas roupas. O canto dos pássaros lhe era indiferente. O calor do sol, tão brilhante e vivo, não tocava sua pele. Tudo trespassava seu corpo. Nenhum estímulo o afetava. Apesar do tom opaco e frio de sua pele, o homem não era um fantasma. Ao contrário, como todo o mundo, era feito de carne, embora fosse oco por dentro. Cobria-se com grossas camadas de roupa e usava uma máscara discreta, que lhe cobriam as feições. Temia que seu verdadeiro rosto pudesse deixar transparecer aquilo que ele realmente era. Temia que se o olhassem nos olhos —  olhassem verdadeiramente em seus olhos — pudessem ver que por trás deles não havia nada. O nada o assustava. Parecia lhe corroer. Doía, e apontava algo que ele não sabia como preencher. Todos os outros eram feitos de carne e osso, mas ele era composto por nada. 

Como era possível? Como era possível que, mesmo sendo feito de nada, sentisse como se algo o corroesse por dentro? Ser vazio parecia tomar todo seu espaço. Ser vazio o consumia, como se o vazio constituísse algo por si só. Poderia alguém assim existir?

Desejava ser como as outras pessoas. Não que ele fosse único, mas porque ele era ele, e queria deixar de ser. Desejava ter o que os outros tinham, mas não sabia se os outros tinham algo. Seriam todos ocos, e assim como ele, cobriam-se com máscaras e disfarces? Seriam todos vazios, e fingiam carregar algo dentro de si? Não sabia dizer. Sabia que, por mais que quisesse, por mais que desejasse, não teria outra possibilidade: só poderia ser. E assim seria.

23/10/2017

(Re)Leitura: A sombra do vento
- Carlos Ruiz Zafón

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

Comecei a reler A sombra do vento há algumas semanas atrás, depois de anos em que fiz a primeira leitura. Zafón era (e ainda é) um dos meus autores favoritos, e a leitura dos livros dele sempre foram muito especiais para mim. Tive medo de que, se relesse A sombra do vento agora, depois de tanto tempo, teria uma visão diferente do livro, e acabaria não gostando tanto quanto gostei da primeira vez. Resolvi folhear o livro por um momento, e sem perceber, já tinha passado da metade.

Minha intenção quando tirei A sombra do vento da estante, era de emprestá-lo. Quem diria que, depois de tanto tempo, eu emprestaria meus livros. Lembro que na época isso era impensável, o mesmo para trocar ou doa-los. Aquela frase do Zafón, escrita em A sombra do vento mesmo, sobre os livros se renovarem ao trocarem de mãos, era completamente ignorada por mim. As coisas mudam.

Apesar de ser uma releitura, tive a sensação de ler o livro pela primeira vez. Me lembrava dos personagens e do pano de fundo, mas não de como a história terminava ou do que acontecia. Esqueço das coisas com facilidade. Me lembrava tão pouco da história que, quando li, sem querer, a grande reviravolta do livro (folheei as páginas), fiquei completamente revoltada! Minha surpresa e indignação foi totalmente desproporcional a reação de alguém que está lendo um livro de novo. Pra ser sincera, não me lembro nem dos detalhes de O Jogo do Anjo, outro livro do autor que eu reli mais de três vezes, em todos esses anos.

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

A sombra do quê? Que livro é esse?


Pra quem nunca ouviu falar em A sombra do vento, o romance gira em torno da história de Daniel Sempere, um garoto que um dia encontra um livro escrito por um tal de Julián Carax, cujo título é "A sombra do vento". Daniel fica completamente fascinado pelo autor, e quando resolve procurar outros livros dele, descobre que alguém se dedica a queimar todas as suas obras, e que o exemplar que ele possui pode ser o último que resta. Intrigado, Daniel começa a tentar resgatar a história de Julián e descobrir o mistério por trás de suas obras queimadas, ao mesmo tempo em que vai construindo sua própria história, que se torna inseparável da história que está resgatando. A sombra do vento (do Zafón, e não do Julián), faz parte de uma série chamada O cemitério dos livros esquecidos, e atualmente tem quatro volumes (o quarto foi lançado agora, em setembro): O Jogo do Anjo, A Sombra do Vento, O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos. Apesar de serem uma série e seguirem uma ordem cronológica, os livros podem ser lidos em qualquer ordem sem prejudicar o entendimento do todo.

Reli A Sombra do Vento, e aí?


A primeira coisa que notei com minha releitura é que a história do Daniel parece ser uma repetição da história do Julián. O que foi uma coincidência engraçada, porque eu me sinto como se estivesse vivendo uma repetição da minha situação de cinco anos atrás, quando li o livro pela primeira vez. A segunda coisa que notei foi que todos os personagens, sem exceção, estão (desculpem a palavra) totalmente fodidos. Não só estão na pior situação possível, como acabam também arrastando os outros pra baixo. Usando uma palavra do próprio Zafón, todos os personagens são malditos, e não é a toa que na série, Barcelona é uma cidade amaldiçoada.

Tinha simpatizado com o Julián na primeira leitura, mas dessa vez simpatizei com Miquel. [CUIDADO! SPOILER - PASSE O MOUSE PRA LER]
Por que? Porque o Miquel foi o único personagem inteligente o suficiente para entender toda a situação, desde o princípio; viveu à sombra do Julián o livro todo; fez de tudo por uma mulher que não sentia nada por ele; perdeu todo o dinheiro pagando por livros que iam direto para um depósito, tudo por uma promessa... para no final, morrer doente, se sacrificando por uma pessoa que jogou o sacrifício dele no lixo.
[/FIM DO SPOILER]. Miquel teve o final mais ingrato de todos, apesar da personalidade forte e os diálogos cativantes, e acho que resume bem o que é "viver" como um personagem do Zafón.

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

Me senti solitária enquanto lia. Não sei se foi pela solidão dos personagens, ou pelo tom melancólico que a história é narrada. Ou talvez eu me sinta como um personagem do Zafón, e rolou uma identificação durante a leitura. Só sei dizer que cada capítulo me deixava com um sentimento de vazio, e uma vontade enorme de sentar em um lugar tranquilo e apenas observar o tempo passar. Ao mesmo tempo em que eu sentia que o livro não me despertava nada — nenhuma ideia concreta para pensar —, sentia que ele mexia com tudo. Não é a toa que todo mundo que lê recomenda. Não só os personagens e a trama são cativantes, como o autor tem uma forma poética de escrever, que te prende até o final. Contar histórias é uma arte que Zafón domina muito bem. Fiquei feliz por fazer uma releitura depois de tanto tempo, e ainda sentir que é uma boa história, como da primeira vez. Pretendo começar a releitura de O prisioneiro do céu, pra me preparar para a leitura d'O Labirinto dos Espíritos, que foi lançado agora. 

17/10/2017

Por que decidi criar um perfil separado para o blog no Instagram?

Perfil separado pro blog no Instagram
Foto por Wokandapix
Alguns meses atrás, depois de pensar bastante a respeito do assunto (porque né, eu sou eu e tudo tem que ser pensado nos mínimos detalhes), criei um perfil no Instagram pro 31 de Março. Fiquei um bom tempo pensando se deveria ou não fazer isso, e mesmo depois da criação do perfil, continuei pensando se deveria ou não usar. A ideia de manter as coisas separadas  um perfil pro blog, outro pra minha vida pessoal  não me agradava muito. Li a opinião de várias blogueiras sobre o assunto, e a maioria repetia o mesmo discurso: o blog que escreviam faz parte da vida delas tanto como qualquer outra coisa, e por isso, não tinham como separar uma coisa da outra. Ou seja, aquilo que era para ser compartilhado com os leitores do blog também era para ser compartilhado com família e colegas de trabalho, não existindo diferença entre uma coisa e outra. Mas eu não consigo ver dessa forma.