21/09/2017

A Descida

A descida

No chão, um buraco profundo e escuro, como um poço. Enorme, ocupava quase a vila inteira. Sua outra metade tinha caído lá dentro. Era pequena e frágil, e estava perdida naquele oceano de escuridão. Procurou uma corda para que pudesse resgatá-la. Encontrou uma de suas pontas, grossa, pesada, com centenas de milhares de metros. Deu um nó, e a jogou no poço — a outra ponta estava presa no infinito, atravessando a Terra, impossível de encontrá-la.

A outra metade subiu pela corda, suja e fraca, tremendo e soluçando, balbuciando coisas sem sentido. Sentou-se encolhida no chão. A metade que ficou em cima, a que jogou a corda, a abraçou dizendo palavras de conforto. Tentou aquecê-la com o calor de seu corpo. A metade frágil disse:
— Eu vi coisas inimagináveis.
E a que tinha a força, respondeu:
— Mas agora você está de volta.
— Sim. Mas lá embaixo, perdi meu coração.
A outra, pensando sobre aquilo, já colocando-se de pé, respondeu com confiança:
— Vou buscá-lo.
E a pequena, desesperada, soluçando, sem forças para impedi-la, choramingou:
— Não pode. Você será devorada. Irá se perder. Não encontrará o caminho de volta...
— Eu não tenho medo — retrucou, já segurando a corda para descer — esteja aqui, para quando eu voltar. Cuide da corda.
— Não vá...
— Eu preciso — respondeu, e sem olhar para trás, começou a imensa descida, centímetro por centímetro, com cuidado para não despencar.

No início, sentiu frio. E, a medida que descia, e a luz acima de si tornava-se menor, começou a sentir medo. As paredes do poço eram firmes e gélidas. Não havia nenhum som, e o ar estava pesado. Não via nada abaixo de si. Suas únicas sensações eram as tiras ásperas da corda sob sua pele, e o palpitar apressado de seu coração. A luz tornou-se cada vez menor, um brilho pálido e diminuto acima de si, até extinguir-se completamente. 

Ela continuou descendo e descendo, até chegar a completa escuridão. Encontrou o nó e soube que era o fim da corda. Soltou-se, mas não houve sensação de queda. Não houve sensação alguma, e ela se viu suspensa, incapaz de sentir, ver ou ouvir. Não havia luz, ou calor, nem som. Seu corpo estava adormecido. Não sentia nada em sua pele, nem abaixo dela. Não havia fora, nem mesmo dentro. Ficou completamente só, com seus pensamentos, até não existir mais pensamentos. Até não existir mais nada.

Passou-se um tempo que não era tempo. Horas que não eram horas, até surgir um sussurro, que tornou-se um ruído, até transformar-se em som.

O som tremulou, tomou ritmo e forma. Ganhou luz e começou a brilhar. Recebeu cores, formas e cheiros. Estava vivo, e pulsava. A metade forte voltou a ver, ouvir e sentir, e viu Tudo. Sentiu-se fraca, mas lembrou-se que precisava procurar o coração. Encontrou-o através de Tudo, e segurou-o na palma de sua mão. Guardou no bolso, e Tudo desapareceu. Não havia nada, exceto a memória da metade que esperava lá em cima. Segurou a ponta da corda, e começou a escalar.

Foi subindo, e subindo, e subindo, numa escalada cada vez mais árdua. O coração pesava em seu bolso, e o frio congelava seus ossos. Temeu pela sua vida, acreditou que não conseguiria, mas continuou subindo. Suas mãos sangravam e a corda queimava sua pele. O ar estava frio e congelava seus pulmões. O peito ardia, e o corpo começava a pesar uma tonelada. Mas continuou subindo.

Uma de suas mãos se soltou. Escorregou alguns metros abaixo, e por pouco não se soltou da corda. A mão queimava e ardia, em carne viva. O corpo pendia, suspenso, sustentado por aquela mão tão machucada. Subiria com facilidade se soltasse o coração. Tornaria-se leve e em instantes conseguiria ver a luz. Recuperaria a força que havia perdido, mas a jornada teria sido em vão.

Com dificuldade, segurou a corda com a outra mão. Agarrou-se com força, e continuou subindo, apesar da dor. Estava quase perdendo as esperanças, e sentia que seu corpo iria se desfalecer, quando viu uma minúscula pontinha de luz. Sorriu, e começou a subir cada vez mais depressa. A luz cresceu, e foi crescendo até iluminar todo o poço. Viu sua metade sentada na beirada, esperando. Chegou ao topo e arrastou-se para fora, ajudada por ela. Com dificuldade, sentindo-se fraca e frágil, tirou o coração do bolso e a entregou. A outra o pegou, e o coração aqueceu seu corpo, curando suas feridas e dando cor a sua pele pálida. Estava renovada, e agora, sentia-se forte. 

Olhou sua outra metade, caída no chão, com frio e com medo, as mãos feridas, e ajoelhou-se ao seu lado. Tinha sacrificado sua força para que ela tivesse seu coração de volta. Tornara-se fraca para que ela ficasse forte. Sentiu-se grata. Tocou seus cabelos e ela deixou de sentir frio. Tocou seu rosto e este começou a ganhar cor. As feridas se curaram. Aos poucos, começou a ganhar força, e quando as duas metades tornaram-se fortes, uniram-se em uma só.

11/09/2017

A Estranha-que-não-é-estranha
e uma viagem na escada do ônibus

Conversas com estranhos
Foto por Pexels
Domingo, fim de feriado, dia de voltar para JF. Horário do ônibus: 15:15. Peço carona ao meu pai até a rodoviária. Como sempre, saímos atrasados. Chego na rodoviária e o ônibus já está lá. Subo, pago a passagem e percebo com tristeza que a pessoa a minha frente sentou no último banco disponível. O ônibus SD/JF é roleta, e como tal, está sujeito a todas as situações que acontecem num roleta comum, inclusive a situação "entrar no ônibus e ficar em pé". Vou até o final apenas para me certificar que realmente não tinha mais banco vazio para mim. A decepção em meu rosto fica tão evidente que rola um sentimento de empatia entre os passageiros que estão sentados. Volto até o meio do ônibus e deixo minha no chão, com preguiça de viajar em pé e com peso nas costas.

O ônibus sai da rodoviária e para no próximo ponto para pegar mais passageiros. Sobe uma mulher que, de forma inesperada, senta na escada onde as pessoas descem, de frente para a posta de saída. Olho para ela, surpresa, e antes que mais alguém resolva fazer o mesmo, sento ao seu lado. Só cabem duas pessoas na escadinha. Consigo ver o chão da estrada através do vidro, penso na possibilidade da porta abrir e eu cair na rua. Muito improvável.

Ela olha para mim e ri. Eu digo:
— Já que é assim, vou sentar também.
E ela:
— Mas você ia ir em pé? 
— Sim... Nem sabia que podia sentar aqui.
De fato, pensei na possibilidade, mas tive medo que o trocador me mandasse levantar, na frente de todas aquelas pessoas. Com ela, ao menos, a vergonha seria menor. 
— Iih menina! Já cansei de viajar aqui. Hoje que eu não esperava que o ônibus enchesse tanto, fiquei surpresa quando vi.

07/09/2017

Já se foi o BEDA!
(e algumas considerações!)


Pra quem não está familiarizado com esse universo de blogs — "blogosfera" — BEDA é um projeto coletivo que acontece no mês de Agosto (com uma prévia em Abril) onde vários blogueiros se dedicam a fazer um post por dia, durante o mês todo. Não sei quando começou ou quem teve a ideia inicial, cheguei e já estava assim, mas resolvi participar esse ano, pela primeira vez, porque todo ano via a movimentação que isso gerava e ficava com vontade.

Já adianto que não terminei o desafio. Meu último post foi no dia 25, mas cheguei a escrever um ou dois posts a mais, que acabaram ficando em rascunho por falta de tempo para revisão. Não queria publicar sem formatar. De qualquer forma eu sabia que não chegaria ao dia 31, porque tinha um congresso para ir, que começava no dia 28. Fiquei devendo três posts que gostaria de ter feito sobre o projeto: uma retrospectiva, posts de outros blogs que participaram do BEDA e esse, sobre a experiência com o projeto. Sobre a experiência: foi maravilhosa.