20/10/2018

Uma performance no meio da rua

Foto de um pequeno aglomerado de pessoas deitadas no chão umas sobre as outras

Sexta eu tive, sem sombra de dúvidas, uma das melhores experiências da minha vida até o momento. Participei de uma performance artística, em público, no meio do calçadão de Juiz de Fora. O local mais movimentado da cidade no horário mais movimentado: a hora do rush.

Como eu fui parar nessa situação? Não sei direito. Ano passado participei de um momento de jogos do Teatro do Oprimido, em Uberlândia. Entre os jogos, participei de um que precisávamos rolar no chão, uns por cima dos outros. Na quinta-feira, um amigo que participou desse jogo comigo me mandou uma mensagem: "bora rolar no chão de novo Marina?". Era um convite pra oficina do Mercúrio Líquido. Na quinta-feira deitei no chão de uma galeria, pra aprender a performance, na sexta, apresentei a performance em público, com mais outras 13 pessoas.

Eu não vou explicar a performance, porque arte não se explica. Vou descrever, e cada um reage como quiser. Uma pessoa deita no chão, e as outras deitam com ela, ou por cima dela, ou por baixo... Não importa. Deitam até se formar uma massa, um único corpo, sem contorno, respirando em conjunto. É isso. Tudo feito em silêncio. Um corpo se move, os outros movem junto, se ajustando, se integrando, escorrendo feito líquido mesmo. Um líquido pesado: Mercúrio Líquido. E apresentamos no meio do calçadão.

Vou falar da minha experiência. Em primeiro lugar, foi libertador. Quem me conhece sabe: sou tímida demais, tenho medo de me expor e o julgamento alheio me preocupa muito. Mas nesse momento, esqueci de tudo isso. Eu só estava ali, deitada no chão do calçadão, completamente relaxada, deitada sobre os corpos de outras pessoas. Até senti o sol bater no meu rosto, foi lindo.

Bom, calçadão não é um lugar onde se costuma deitar, logo, nossa performance gerou estranhamento. Críticas, muitas críticas, comentários negativos, teve até quem disse que aquilo era o Apocalipse.  Teve quem gostou, aplaudiu, elogiou. Teve até quem quis participar, colocou criança pra tirar foto. Um senhor foi atrás de nós ao fim da performance. Sentiu necessidade de falar sobre o assunto. Gostando ou não, quem passou por nós reagiu de alguma forma. Pensou.

Partimos do pressuposto que toda reação é válida: as pessoas tem o direito de achar o que quiser. Aliás, o objetivo não é concordar, é incomodar, fazer pensar, romper com a lógica mecânica de todo dia: acordar, comer, trabalhar, comer, ver TV, dormir, acordar... Enfim, a rotina. Muita gente associou o que via a política. Era político, mas não tinha a ver com eleições. Mencionaram candidados, e não preciso dizer de que lado imaginaram que estávamos. Não era sobre candidatos, mas era político. Porque é assim: arte é política, independente de falar ou não de candidatos.

Saí de lá renovada. Com energia pra correr maratonas. Percebi que quero trabalhar com algo assim: arte, corpo, público, cotidiano... Ainda não sei como, mas vou encontrar meu caminho. Estou muito feliz com a experiência. Quero participar de outras. Queria poder eternizar o momento.

Tem mais no Meu Instagram e no Instagram do Mercúrio

24/09/2018

Querida Alice


Querida Alice,

faz tanto tempo que não escrevo para você. Não sei se ainda sei como fazer... Aconteceram muitas coisas, não tive tempo, perdi a vontade. Achei que deveria voltar e escrever para você, mais uma vez.

Primeiro, eu gostaria de explicar a mudança súbita no formato. Do papel real para o virtual. Eu joguei todas as outras cartas fora. Acredito que sobraram apenas algumas. Reler todas aquelas palavras, escritas durante tantos anos, me trazia muita dor. Eu precisei fazer, como uma forma de deixar o passado para trás. Me sinto melhor assim. Esse novo formato traz algumas mudanças: é provável que tenhamos espectadores, alguns que talvez escrevam para você também, outros mais silenciosos. Tenho certeza que você não se importa.

Estou no décimo período da faculdade agora. Quando foi a última vez que lhe escrevi? No oitavo? Início do nono? Não me lembro. Escrever o TCC vem sendo uma experiência estressante, mas não tanto quanto imaginei que seria. Esses anos todos escrevendo para você, lendo e fazendo resenhas, escrevendo meu blog e outras coisas, talvez tenham servido para alguma coisa, algo além de desabafar. O décimo período traz perspectivas assustadoras: o que fazer depois de formatura? Que caminhos seguirão eu e meus amigos? Como enfim viver a prática sem orientações de professores? Sendo bastante sincera, não estou com medo. Penso que eu deveria estar, mas não estou. Olho para trás e vejo o quanto vim caminhando: das inúmeras mudanças de escola, ao início da faculdade, mudança de amigos e de cidade, as várias mudanças de cabelo, opinião e outras coisas... Posso dizer com segurança que nunca tive medo do novo. Não me conhece quem diz que não me arrisco: minha vida tem sido uma série de tiros no escuro, um atrás do outro. Eu sei que não vai ser diferente depois da faculdade. Assim como não foi ao fim do ensino médio. Eu fico feliz que tenha dado certo.

Tem algo que eu preciso lhe contar! Comecei minha terapia! Estava morrendo de medo no início, mas a terapia não é o que parece. Não chega nem perto do que vi e ouvi na faculdade. Atrasava propositalmente dez minutos em todas as sessões, no início, mas hoje, se pudesse, chegaria adiantada. Sinto como se aquele fosse o único lugar onde eu sou por completa. E o único lugar onde tem alguém que vê isso - eu mesma. Minha psicóloga é maravilhosa, mas consigo ver que ali tem um ser humano. E me sinto bem com isso. Aliás, esse é o propósito da Gestalt-terapia: terapeuta e paciente crescem no contato. Minha terapia me conquistou tanto que decidi seguir por esse caminho: quero ser uma Gestalt-terapeuta também :)

Tem alguns detalhes sobre a terapia que pretendo te contar um outro dia, como, por exemplo, o fato que faço terapia sentada no chão, em uma sala quase-vazia, fugindo completamente do padrão sofá/divã que vamos por aí. Foi uma escolha minha, obviamente, minha psicóloga tem uma sala de verdade. Não me lembro dos pormenores que me levaram a pedir para trocar de sala, mas depois que trocamos, nunca mais voltei. Às vezes me esqueço que nem todas as terapias são assim. É estranho, eu percebi na terapia que buscava me encaixar e me enquadrar num "padrão", mas minha terapia desde o princípio fugiu disso, como se algo em mim, lá no fundo, gritasse por uma existência fora da curva. Não foi intencional, principalmente porque só percebi com meses de sessão que eu andava me esticando, me enquadrando, puxando aqui e ali pra caber no mundo - que eu achava que era - dos outros. Me sinto bem dessa forma, sentada no chão, de frente para a psicóloga (que também senta no chão, e desde as primeiras sessões nunca mais veio de salto, porque atrapalha), falando do que me vier a cabeça, sem me preocupar se é assim que se faz ou não uma terapia, se estou fugindo ou não de algo, se eu deveria ou não ocupar o silêncio. É minha terapia, e eu a faço da minha forma. Aliás, existo da minha forma, e nada é mais importante para mim do que isso. 

E o que mais? Acho que preciso falar sobre a dor. Eu ainda a sinto. Aquela dor que tanto escrevi para você, que dói o peito, que sufoca, que puxa e aperta, que queima a alma... eu ainda não descobri o que é, e de onde veio. Tenho medo que nunca vá descobrir, tenho medo que nunca vá embora. Dói muito, ainda. E quase o tempo todo. Tenho aprendido a viver assim mesmo, com ela. Porque não quero esperar para viver quando ela passar. Quero viver aqui e agora. Com o que tenho, do jeito que tenho. Com ou sem ela. Não foi fácil chegar a essa conclusão, nem sempre consegui (e consigo) pensar dessa forma. Mas estou caminhando, um dia de cada vez. E se vale ou não a pena, só vou descobrir no final, quando chegar.

Enfim, me prolonguei muito, como sempre faço. Não consigo mais escrever com tanta frequência, por isso os assuntos se acumulam. Como sempre, agradeço o espaço que tenho durante todos esses anos, e espero poder te escrever de novo, em breve. Até logo!

20/08/2018

Do que tem feito eu me sentir em paz

Imagem em tom púrpura de uma flor de lótus boiando ao lado de um lírio
Foto por Devanath
Às vezes eu me pego pensando em vir aqui, escrever algo, um texto grande como eu costumava fazer. Ultimamente tenho escrito pouco, me expressado pouco. Na verdade, tenho feito tudo um pouco devagar. Diminuí o ritmo, e isso está se mostrando nas coisas que ando fazendo. Sempre escrevi bastante porque pensava bastante, e também pensava rápido, e as ideias iam se acumulando. A solução era escrever. Hoje não está mais assim. Tomo o meu tempo, e desacelerando um pouco, conseguir apreciar mais o que está a minha volta. Tenho me sentido em paz dessa forma.

Quase todo dia antes de deitar para dormir, leio algumas frases Budistas que salvei no meu pinterest. Budismo para mim tem sido calmaria em meio à uma tempestade. Tinha deixado de lado minhas leituras dos ensinamentos do Buda, mas depois de um tempo afastada, voltei. Sempre me fez bem e sempre me deixou tranquila, mas por falta de tempo, e talvez por dar crédito demais as torcidas de nariz alheias, me afastei. Hoje voltei a ler, estudar e colocar em prática algumas coisas. Pretendo, talvez no futuro, me dedicar oficialmente a essa filosofia. Ainda não sei. Por enquanto deixo como está. Estou em paz dessa forma.

Ando seguindo um dia de cada vez. Muitas pessoas me perguntam o que vai ser do meu futuro. Do fundo do meu coração, respondo que não sei. Em relação aos meus planos, digo com sinceridade: ainda não planejei. Tinha receio de admitir essa verdade: de que acredito que o futuro é incerto e é inútil planejar muito a longo prazo; muita coisa acontece, nada sai como esperado. Mas por viver em meio a pessoas que estão sempre um passo a frente, sempre um dia adiante, sempre pensando no futuro, acabei me adaptando. E acabava fazendo planos também, apenas para me adaptar. Atualmente respiro e digo para mim: uma respiração de cada vez, um dia de cada vez, um passo de cada vez. Também é um ensinamento budista, e estou em paz por segui-lo. Meus planos para o futuro nunca funcionaram, sempre acaba me limitando e me frustrando. Tenho deixado as coisas seguirem seu rumo, e na maioria das vezes me surpreendo: a vida me traz mais do que eu esperava. Está sendo bom. Estou em paz com isso.

Percebi que me levo pouco pelo medo. É engraçado, porque sempre me vi como medrosa. Mas o medo mesmo, não me impede. Tenho me visto como corajosa. Não aquela coragem que as pessoas tanto falam, que não sente nada, que não pensa em nada, que passa por cima de tudo e não se permite ser frágil. Me sinto frágil, mas também corajosa. Acho que é preciso sim, ter muita coragem pra ser frágil. Admito: sou medrosa, e às vezes um pouco frágil. Ainda há muito o que fazer, mas estou em paz, assim mesmo. Estou caminhando, um passo de cada vez.

Estou em paz porque, eu estava — e ainda estou — em um momento muito, muito difícil da minha vida. Estou passando por um período turbulento, e acreditava que nunca conseguiria me sentir em paz. Ainda tenho muito o que caminhar, mas o pouco de paz que ando sentindo, o pouco de tranquilidade, eu não acreditava ser possível. E estou em paz por perceber que é. Não sei como vai ser daqui para frente, e no momento não estou preocupada. Hoje estou em paz, amanhã já não sei. Continuo seguindo um dia de cada vez.