17/12/2012

O porta-retrato

Era fim de ano. Época de festas, de compras e de fingir que amamos uns aos outros. Em uma sala de um lugar qualquer estavam reunidos 12 pessoas, fazendo o "amigo oculto". Era a vez de uma senhora falar, ela descreveu, com um pouco de dificuldade, sua amiga oculta, até que adivinhassem quem era - uma moça loira, que ninguém sabia nada a respeito. A amiga oculta recebeu seu presente, e antes mesmo de olhar para ele com calma, descreveu seu amigo oculto e entregou o presente para ele. 

A moça sentou-se para olhar o presente que recebera com calma: um embrulho achatado, não muito grande. Parecia um livro com menos de 200 páginas, ou um caderno, daqueles pequenos. Ela não quis tentar adivinhar, rasgou o papel do presente logo. Não ficou nada feliz ao ver que era um porta-retrato, na verdade, ela sabia que não ia ganhar algo legal, ela nunca ganhava nada que realmente queria.

Ficou observando o porta-retrato, que até achou bonito, era de plástico, com alguns desenhos que formavam uma flor. A foto que veio nele era de um casal de modelos-sorriso-forçado, escrito no canto superior esquerdo a medida da foto. 

O problema não era o porta-retrato, era o fato de que ela não tinha nenhuma foto para colocar nele - não que ela não gostasse de tirar fotos, mas ela não tinha o que fotografar. Todos os dias, ela acordava de manhã, tomava café e ia trabalhar, na hora do almoço, não fazia nada, sempre comia em um mesmo restaurante, sem falar nada com ninguém, depois voltava ao trabalho, e quando terminava seu horário de serviço, voltava para casa, fazia o que tinha de fazer e assistia televisão até cair no sono. No outro dia, a mesma coisa. Nos fins de semana ficava em casa, não saía com amigos - ela nem tinha algum - não saía sozinha, não fazia nada demais, só aceitara participar do amigo oculto porque as pessoas do serviço insistiram (e agora ela via que não devia ter participado).

Continuou olhando para aquele objeto enquanto pensava na vida, é verdade que ela não estava vivendo de verdade, apenas trabalhando. Que foto iria colocar ali, se não tinha nenhuma? Pensou um pouco e decidiu que era hora de tomar uma atitude, era hora de mudar, de fazer alguma coisa. Levantou-se, passou pela senhora que havia lhe dado o presente, acenou a cabeça, talvez em agradecimento. Continuou andando, carregando o porta-retrato nas mãos, parou um instante perto da porta, respirou fundo e sem hesitar, jogou o porta-retrato no lixo. Que tipo de pessoa dá um porta-retrato em um amigo oculto? Não dava para comprar algo mais útil? Ela, com certeza, não tinha sorte nenhuma em amigo-oculto.

18 comentários:

  1. Aassim que eu gosto de uma história, final inesperado. Gostei do "...fingir que amamos uns aos outros"...

    :D

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    1. hahah mas é verdade! a gente finge só porque é fim de ano ^^

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  2. Gostei do texto! E ainda me senti um pouco nele... eu não curto muito amigo oculto...

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    1. também não gosto, sempre ganho uma coisa que fica jogada ^^

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  3. E depois você me diz que eu sou criativa? Menina, que conto perfeito! Você mesclou um ato banal a uma reflexão e saiu esta maravilha!

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    1. Você é MUITO criativa *-*

      Ah obrigada ^^

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  4. Ameeeei o texto ^^
    Goste da primeira frase ^^
    Beijos
    brubs

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  5. Que texto! E eu pensando "nossa, ela vai mudar de vida". Mas que nada... Ela está fadada a isso pois assim o é.
    Um texto bem realista, demonstra bem a nossa essência. Adorei. Parabéns. ^.~

    eu-cotidiano (perfil)

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    1. Na maioria das vezes a gente mesmo não muda de vida...

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  6. Legal o seu texto! é como se brincasse com a expectativa do leitor - pensando que haverá alguma coisa bombástica. Mas no final das contas, parece que a surpresa é justamente não acontecer nada XD você daria uma ótima cronista =D

    Beijos!
    http://labsandtags.blogspot.com.br/

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  7. Que bom que resolveu o problemas com a internet, adorei seu texto!

    xoxo
    http://amigadaleitora.blogspot.com.br

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  8. Gostei deste texto hehe
    É hora dela mudar sua vida... sair da rotina, deu pra pensar um pouco na minha...
    Mais precisava ter jogado fora o porta retrato... rsrs

    bjsss Mila

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  9. Você que escreveu, Marina?!?! :ooo
    Que massa!!!!!!! Adorei o conto! O fim inesperado foi o melhor!! Ri bastante! hahaha

    beijos

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