09/01/2015

A Praga

AVISO: conto não recomendado para pessoas sensíveis.


Não se sabe como começou, porque, quando ou onde. Foi assim, aos poucos. Sorrateiro e silencioso como um ladrão. Notícias estranhas na TV, "milagres" acontecendo em vários lugares, eleições e grandes eventos cancelados. Quando o mundo se deu conta, os mortos estavam voltando a vida, famintos, devorando qualquer coisa viva que encontrassem, incluindo aqueles que um dia foram seus conhecidos. Cadáveres em decomposição andando pelas ruas, deixando seus pedaços caídos por onde passavam. Gente se escondendo em todos os cantos, estocando comida, armas e munição. Seria possível sentir o cheiro do medo, se o da morte não fosse tão forte. O governo não se manifestava — se é que ainda existia — e todos temiam que aquele fosse o fim da raça humana.


Quase um ano depois do mundo virar um caos, um homem se refugiava dentro de um supermercado, sua filhinha, uma criança magricela e de olhar quase catatônico era a única companhia que tinha. Todos os outros vivos que ele encontrara estavam mortos agora, alguns pela praga, outros por ele mesmo. Leis não mais existiam, e era preciso defender-se não só dos mortos, mas dos vivos. Aquele supermercado, que outrora foi um refúgio perfeito, se tornara uma prisão. Por um pequeno descuido, os mortos o invadiram por todos os lados. Não adiantava correr, as saídas estavam bloqueadas. O homem sabia que lutar era inútil, sua munição estava acabando, mas não quis desistir tão fácil. Para "matar os mortos", era preciso destruir o cérebro, nada mais funcionava contra eles. 

Seu plano inicial era correr até uma espécie de quarto do pânico que ele tinha construído: havia suprimentos suficientes para esperar até mesmo uma intervenção divina, e munição, caso a primeira não viesse. Mas o caminho que levava ao seu "quarto do pânico" estava completamente bloqueado, fileiras de mortos andavam lentamente pelo corredor, esbarrando uns nos outros e impedindo a passagem. Não existia modo de derrubar todos eles, mas era possível correr, seus passos letárgicos era o que dava vantagem aos vivos. 

Derrubando um morto aqui e ali, pai e filha corriam buscando a sobrevivência. A menina, já acostumada e traumatizada com a situação, não reagia, nem se assustava, apenas seguia o pai por onde quer que ele fosse, segurando uma boneca surrada como se a boneca pudesse mantê-la protegida. O pai, querendo apenas a sobrevivência da filha, pensava de maneira rápida e desesperada, tentando achar uma maneira de fugir dali.

Correram. Guiada pelo pai, a menina desceu uma pequena escada e entrou em uma sala enorme. O homem veio logo em seguida, fechando as portas duplas atrás de si. A lâmpada mal iluminava o local todo. Caixas vazias estavam jogadas em todos os cantos. Prateleiras e mais prateleiras de aço industrial estavam espalhadas pelo chão, derrubadas como peças de dominó. Debaixo de uma dessas prateleiras, um corpo morto. No dia em que chegaram ali, pai, filha e um pequeno grupo de sobreviventes, o corpo ainda se debatia, tentando inutilmente se soltar da prateleira. O local já havia sido saqueado, e o próprio pai deu fim ao "sofrimento" da coisa. Olhando novamente para aquela sala, vendo aquele mesmo morto, ele percebeu seu erro: aquele era o depósito, e sua única saída estava atrás dele, junto com centenas de mortos que chegavam lentamente. 

Verificou sua munição e soltou um suspiro ao perceber que só restava uma bala. Olhou a filha em pé em frente a ele, encarando-o com expectativa, e as lágrimas embaçaram sua vista. Sabia que não conseguiria salvá-la. As portas não eram nada resistentes, e as dobradiças há muito enferrujaram. As prateleiras eram pesadas demais e grande demais para serem levantadas por uma só pessoa, e uma criança não ajudaria em nada. Tentou levantar uma prateleira, mas usando toda sua força, ele mal conseguiu movê-la. Era o fim dos dois, e talvez dos últimos vivos restantes. Ele não encontrava pessoas vivas há meses, e já começara a pensar que não existia alguém para ser encontrado. 

Segurando a mão de sua filha, ele andou até o lado oposto a porta, e sentou-se encostado na parede. A menininha sentou-se à sua frente, aninhando seu pequeno corpo ao do pai. Ela acreditava que estavam seguros ali, que a porta aguentaria e que no fim os mortos iriam embora. Ela confiava no pai, sabia que ele daria um jeito, que ele os manteriam a salvo. Mas os mortos não desistem, e se os dois não morressem por eles, a fome terminaria o trabalho. 

Olhou a sua volta pela milésima vez, não encontrando nada que pudesse ser útil. Negou, odiou, negociou até que por fim aceitou que não havia nada a ser feito. A porta cedeu alguns centímetros e vários braços putrefatos passavam pelo pequeno espaço gerado. 

Lutando contra as lágrimas, esforçou-se para dizer o que seria suas últimas palavras:

— Meu bem? Você sabe que o papai te ama, não sabe?

— Também te amo, papai — foi a resposta da menina, que aquela altura ainda acreditava que tudo daria certo. Ele quase não conseguiu ouvir sua voz. Toda a alegria, energia e vida que a menina possuía se esvaíra juntamente com a ordem do mundo. 

Não conseguiu impedir que as lágrimas rolassem. Deu um beijo nas bochechas pálidas da filha, molhando seu rostinho e voltou os olhos para cima, como se esperasse uma intervenção divina. Voltou a olhar a porta, notando que ela cedeu um pouco mais. Tapou com uma das mãos os olhos da filha, reunindo forças para o que iria fazer em seguida. Segurando a arma com a outra mão, apontou o cano para a cabeça da pequena menina. Ela apertou a boneca e se encolheu ao sentir o cano frio em sua têmpora. O homem fechou os olhos, sentindo-se destruído. Lágrimas não paravam de escorrer pelo seu rosto. Quando a porta veio abaixo, ouviu-se um disparo, e logo os mortos tomaram conta do "refúgio perfeito"...

10 comentários:

  1. Sou sensivel e me emocionei com o texto =)
    Me lembrou do jogo que adoro The Last of Us

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    1. Ahh nunca joguei, mas já ouvi falar. Parece ser bom *--*

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  2. Cara, dá até um arrepiozinho de pensar se um apocalipse zumbi realmente acontecesse. Acho que se eu sobrevivesse mais de um dia ia ser por sorte e por covardia, é LOL
    Zumbis nunca foram o meu forte, então quase não escrevo sobre, mas adorei o conto! Vou ler mais coisas suas :D

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    1. ushaushauh' eu acho que seria aquela pessoa que acaba sugando todos os sobreviventes, até morrer pra um zumbi parado. Sou muito medrosa

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  3. Eu to chorosa,eu sou muito sensível e nem aguentei quando chegou na parte do pai e da filha.Nem imagino se acontecesse um apocalipse zumbi,eu não sairia de casa tão cedo e seria pouco provavél de que iria sair.
    Nunca gostei de Zumbis,mas amei o conto.
    Beijos
    Ariih { diario-de-uma-adolencencia.blogspot.com }

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    1. Por isso que avisei no fim do texto, eu que escrevi e já não aguento pensar no final saushaushu'

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  4. Que aperto no coração!
    Você descreveu bem cada sentimento. Eu me vi facilmente sentindo as sensações dos personagens! Parabéns pelo texto!

    http://www.borboletra.com/

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    1. Obrigada! Fico feliz que tenha gostado *--*

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  5. Marina, parabéns! O conto ficou tragicamente perfeito. Que angústia...

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