15/04/2016

A Ponte

A Ponte

Um passo a frente, dois passos atrás. A névoa densa não permitia ver coisa alguma a sua frente. A madeira podre estalava com o movimento de seus pés. Agarrado a corda, os dedos trêmulos de Henry pareciam congelados, incapaz de soltar as fibras carcomidas pelo tempo. Abaixo de si, um abismo. A ponte balançava de um lado para o outro, com a força do vento, e Henry se agarrava ainda mais a corda. Parecia que ia desabar. Sentiu que aquilo tudo ia desmoronar e ele ia cair abismo abaixo. Quase preferiu essa sentença. 

Era impossível voltar. O caminho que tinha percorrido estava cheio de buracos. Talvez nem fosse possível passar por ele novamente. E mesmo assim, ele não queria voltar. Não podia. Só podia seguir em uma direção: em frente... Ou pular, opção que ele preferia não considerar.

Deu um passo a frente. A madeira rangeu. Parecia falar com ele. Mais um passo. Com um estalo, ele viu seu caminho despencar, até sumir no vazio. Por pouco não foi junto com ele. Já estava há um tempo ali, e a escuridão começava a se misturar a névoa. Não parecia somente a ausência de luz, aquela escuridão era um presença. Misturava-se ao cenário a sua frente e parecia esperá-lo pacientemente, com a consciência de que não havia outro caminho para Henry percorrer. A menos que... Ele podia jurar que ouviu a escuridão sussurrar. A presença se tornava cada vez mais forte, sufocando-o. Aquela entidade era maior que tudo o que conhecia, ia além de sua compreensão. Teve dúvidas se podia lidar com ela. Sentia seus dedos rodeando sua garganta, tocando seu corpo, consumindo sua energia. Pensou em voltar. Tentou voltar. Não havia caminho. Não havia nada. Ou seguia em frente, ou caía... E a ponte parecia balançar cada vez mais.

Ele precisava tomar uma decisão, e precisava tomar imediatamente. Deu um passo, tomando cuidado com o buraco que havia acabado de criar, e, com dificuldade, com medo, hesitante, conseguiu! Havia caminhado um pouco mais, agora só precisava seguir o resto do caminho assim, tomando o mesmo cuidado e... a madeira se racha, quebra, Henry despenca. O chão sob seus pés desaparece, e a sensação de queda é quase pior que a queda em si. Seu coração dispara e a respiração acelera, sua boca fica seca enquanto seu corpo treme como nunca e ele sente que é o fim. Mas suas mãos permanecem congeladas, frias, agarrando a corda. Ele demora a entender o que aconteceu. Quando entende, sente um alívio, que não dura muito. Ainda precisa se esforçar para sair daquela situação, antes que a corda arrebente. Quando consegue, deita-se com medo, tentando dividir o peso de seu corpo na madeira apodrecida. Recupera o fôlego e se levanta. Sente o abismo abaixo de si como tentador, mas sabe que não pode ceder, sabe que precisa seguir em frente. E segue. Um passo de cada vez, Henry segue rumo ao desconhecido. 

6 comentários:

  1. Olá! Lindo Conto! Bem sombrio e tocante, gostei bastante, parabéns ^^

    ps: não sei se você lembra do meu blog, era o "strawberry de livros e filmes" mas agora o nome mudou para "pitada de cinema e leitura" e eu voltei com novidades nesse novo blog! Conto com a sua visita! E espero que goste! :)

    Jéssica Patrício - pitadadecinemaeleitura.blogspot.com

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    1. Obrigada!

      Lembro sim, não tanto quanto gostaria, mas lembro. Vou visitar :)

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  2. mds que arrepio na barriga fazia tempo que n lia um belo conto, sombrio *-*

    http://www.dosedeestrela.com.br/

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    1. hahaha obrigada! Fico feliz que tenha te despertado algo *--*

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  3. Como costumo dizer, este conto é simplesmente sensacional. Me despertou sensações e reflexões, coisas que admirou muito em um texto. Muito lindo. Não deixa de nos presentear com estes contos maravilhosos não, viu? Parabéns.

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    1. Obrigada Leandro! Significa muito pra mim saber que gostou <3

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