28/12/2017

Retrospectiva ~31DM~ 2017

Retrospectiva 2017
Foto que tirei em Uberlândia. Morrendo de saudades de lá ♥
Perdi a conta de quantas vezes sentei na minha cadeira e abri o blogger pensando em escrever alguma coisa. Não sei quantos textos deixei pela metade. O segundo semestre de 2017 foi uma loucura, e eu não consegui escrever. Pensei que seria melhor não insistir, deixar as coisas como estavam. Deixei. Quando me dei conta, já era Natal, e, ao contrário do que pensei que aconteceria, não quis desistir e deixar esse blog de lado, mas senti vontade de dar continuidade a tradição de fim de ano da blogosfera: fazer uma retrospectiva de tudo o que aconteceu no blog durante o ano

Sobre o 31 de Março em 2017: Escrevi 56 posts, (57 com esse) e participei do BEDA em Agosto. Foi minha primeira participação nesses 6 anos de blogosfera, e amei a experiência, apesar de não querer participar de novo. O blog ficou desatualizado nesse segundo semestre, e também resolvi abrir um perfil próprio pro 31DM no Instagram

2017 foi um ano 3 em 1, e tudo o que escrevi no início do ano parece ter sido escrito por outra pessoa. Não consigo acreditar que tudo o que aconteceu esse ano, realmente aconteceu esse ano. É só comigo essa sensação de que aconteceu coisa demais pra um ano só?

A sombra do vento
Esse ano reli A Sombra do Vento. Foi maravilhoso reler Zafón depois de tanto tempo ♥

Meus posts favoritos de 2017:

Mantendo a tradição com os posts que mais gostei do ano (porque também já não lembro como encontra os mais acessados), eis uma seleção com quatro posts dos 56 que escrevi esse ano (foi difícil escolheeer):

  • Minhas fotos do Desafio Primeira de Jan/2017 - Eu fiz um post sobre as fotos, sim! Participei várias vezes do Desafio Primeira no Insta, mas essa foi a vez mais divertida! Eu estava disposta a fotografar todos os dias e planejei várias fotos com antecedência, pra fazer bonito. O resultado está no post. Tenho vontade de participar de novo, porém, no momento, estou sem tempo pra fotografia.
  • Falando com estranhos - Esse post deu a uma coluna, organizada na tag Crônicas. Postei algumas conversas com estranhos que tive, e deixei várias outras em rascunho, esperando para serem postadas. Esse post é um dos meus queridinhos, porque escrevi sem pretensão nenhuma, e tive um retorno muito bacana. Em 2018 espero ter mais conversas pra contar (˘⌣˘ )
  • DIY: Como complicar a vida em passos simples - Eu queria ser igual essas blogayras famosas que fazem tutoriais extremamente criativos de coisas extremamente fofas, tipo o Math, que eu admiro muitão. Mas infelizmente algumas pessoas não nasceram com o dom de deixar a vida mais bonita, então fiz um tutorial da única coisa que sou especialista em fazer: desgraçar a vida de todas as formas possíveis. Vem cá aprender comigo como fazer!!

2017 foi um ano louco e eu confesso ter perdido um pouco a prática em relação a blogar, e preciso (de novo) reinventar isso aqui. 2018 é meu último ano de faculdade e também o ano de escrever o TCC, então, apesar dos meus planos, é provável que eu passe bem menos tempo por aqui. 

E pra você que está lendo e me acompanhou até aqui, meus mais sinceros agradecimentos. Cada visita e cada comentário enchem meu coração de alegria  Feliz 2018!!

30/10/2017

Ser oco

Ser oco
Foto por 56April
Caminhava pelo parque, sozinho. O vento passava direto. Não batia em seu rosto. O perfume das flores à sua volta não impregnava suas roupas. O canto dos pássaros lhe era indiferente. O calor do sol, tão brilhante e vivo, não tocava sua pele. Tudo trespassava seu corpo. Nenhum estímulo o afetava. Apesar do tom opaco e frio de sua pele, o homem não era um fantasma. Ao contrário, como todo o mundo, era feito de carne, embora fosse oco por dentro. Cobria-se com grossas camadas de roupa e usava uma máscara discreta, que lhe cobriam as feições. Temia que seu verdadeiro rosto pudesse deixar transparecer aquilo que ele realmente era. Temia que se o olhassem nos olhos —  olhassem verdadeiramente em seus olhos — pudessem ver que por trás deles não havia nada. O nada o assustava. Parecia lhe corroer. Doía, e apontava algo que ele não sabia como preencher. Todos os outros eram feitos de carne e osso, mas ele era composto por nada. 

Como era possível? Como era possível que, mesmo sendo feito de nada, sentisse como se algo o corroesse por dentro? Ser vazio parecia tomar todo seu espaço. Ser vazio o consumia, como se o vazio constituísse algo por si só. Poderia alguém assim existir?

Desejava ser como as outras pessoas. Não que ele fosse único, mas porque ele era ele, e queria deixar de ser. Desejava ter o que os outros tinham, mas não sabia se os outros tinham algo. Seriam todos ocos, e assim como ele, cobriam-se com máscaras e disfarces? Seriam todos vazios, e fingiam carregar algo dentro de si? Não sabia dizer. Sabia que, por mais que quisesse, por mais que desejasse, não teria outra possibilidade: só poderia ser. E assim seria.

23/10/2017

(Re)Leitura: A sombra do vento
- Carlos Ruiz Zafón

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

Comecei a reler A sombra do vento há algumas semanas atrás, depois de anos em que fiz a primeira leitura. Zafón era (e ainda é) um dos meus autores favoritos, e a leitura dos livros dele sempre foram muito especiais para mim. Tive medo de que, se relesse A sombra do vento agora, depois de tanto tempo, teria uma visão diferente do livro, e acabaria não gostando tanto quanto gostei da primeira vez. Resolvi folhear o livro por um momento, e sem perceber, já tinha passado da metade.

Minha intenção quando tirei A sombra do vento da estante, era de emprestá-lo. Quem diria que, depois de tanto tempo, eu emprestaria meus livros. Lembro que na época isso era impensável, o mesmo para trocar ou doa-los. Aquela frase do Zafón, escrita em A sombra do vento mesmo, sobre os livros se renovarem ao trocarem de mãos, era completamente ignorada por mim. As coisas mudam.

Apesar de ser uma releitura, tive a sensação de ler o livro pela primeira vez. Me lembrava dos personagens e do pano de fundo, mas não de como a história terminava ou do que acontecia. Esqueço das coisas com facilidade. Me lembrava tão pouco da história que, quando li, sem querer, a grande reviravolta do livro (folheei as páginas), fiquei completamente revoltada! Minha surpresa e indignação foi totalmente desproporcional a reação de alguém que está lendo um livro de novo. Pra ser sincera, não me lembro nem dos detalhes de O Jogo do Anjo, outro livro do autor que eu reli mais de três vezes, em todos esses anos.

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

A sombra do quê? Que livro é esse?


Pra quem nunca ouviu falar em A sombra do vento, o romance gira em torno da história de Daniel Sempere, um garoto que um dia encontra um livro escrito por um tal de Julián Carax, cujo título é "A sombra do vento". Daniel fica completamente fascinado pelo autor, e quando resolve procurar outros livros dele, descobre que alguém se dedica a queimar todas as suas obras, e que o exemplar que ele possui pode ser o último que resta. Intrigado, Daniel começa a tentar resgatar a história de Julián e descobrir o mistério por trás de suas obras queimadas, ao mesmo tempo em que vai construindo sua própria história, que se torna inseparável da história que está resgatando. A sombra do vento (do Zafón, e não do Julián), faz parte de uma série chamada O cemitério dos livros esquecidos, e atualmente tem quatro volumes (o quarto foi lançado agora, em setembro): O Jogo do Anjo, A Sombra do Vento, O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos. Apesar de serem uma série e seguirem uma ordem cronológica, os livros podem ser lidos em qualquer ordem sem prejudicar o entendimento do todo.

Reli A Sombra do Vento, e aí?


A primeira coisa que notei com minha releitura é que a história do Daniel parece ser uma repetição da história do Julián. O que foi uma coincidência engraçada, porque eu me sinto como se estivesse vivendo uma repetição da minha situação de cinco anos atrás, quando li o livro pela primeira vez. A segunda coisa que notei foi que todos os personagens, sem exceção, estão (desculpem a palavra) totalmente fodidos. Não só estão na pior situação possível, como acabam também arrastando os outros pra baixo. Usando uma palavra do próprio Zafón, todos os personagens são malditos, e não é a toa que na série, Barcelona é uma cidade amaldiçoada.

Tinha simpatizado com o Julián na primeira leitura, mas dessa vez simpatizei com Miquel. [CUIDADO! SPOILER - PASSE O MOUSE PRA LER]
Por que? Porque o Miquel foi o único personagem inteligente o suficiente para entender toda a situação, desde o princípio; viveu à sombra do Julián o livro todo; fez de tudo por uma mulher que não sentia nada por ele; perdeu todo o dinheiro pagando por livros que iam direto para um depósito, tudo por uma promessa... para no final, morrer doente, se sacrificando por uma pessoa que jogou o sacrifício dele no lixo.
[/FIM DO SPOILER]. Miquel teve o final mais ingrato de todos, apesar da personalidade forte e os diálogos cativantes, e acho que resume bem o que é "viver" como um personagem do Zafón.

A sombra do vento - Carlos Ruiz Zafón

Me senti solitária enquanto lia. Não sei se foi pela solidão dos personagens, ou pelo tom melancólico que a história é narrada. Ou talvez eu me sinta como um personagem do Zafón, e rolou uma identificação durante a leitura. Só sei dizer que cada capítulo me deixava com um sentimento de vazio, e uma vontade enorme de sentar em um lugar tranquilo e apenas observar o tempo passar. Ao mesmo tempo em que eu sentia que o livro não me despertava nada — nenhuma ideia concreta para pensar —, sentia que ele mexia com tudo. Não é a toa que todo mundo que lê recomenda. Não só os personagens e a trama são cativantes, como o autor tem uma forma poética de escrever, que te prende até o final. Contar histórias é uma arte que Zafón domina muito bem. Fiquei feliz por fazer uma releitura depois de tanto tempo, e ainda sentir que é uma boa história, como da primeira vez. Pretendo começar a releitura de O prisioneiro do céu, pra me preparar para a leitura d'O Labirinto dos Espíritos, que foi lançado agora. 

12/10/2017

Uma homenagem a perda de tempo que é a literatura

Literatura Perda de Tempo
Foto por StockSnap
Tenho um amigo que diz sentir que está perdendo seu tempo quando lê um livro de literatura. Sim, livro de literatura. Esses livros mesmo, que contam histórias, que criam mundos novos, que te levam pra lugares onde você não conseguiria ir, se não tivesse imaginação pra te levar. Esses livros que nos desafiamos a ler dez em um mês, e que fazemos maratona de leitura, porque sabemos que um bom leitor vive mil vidas antes de morrer.

Durante algum tempo, ainda um pouco deslumbrada com o universo dos livros acadêmicos, das teorias e do conhecimento aleatório sobre qualquer coisa, me deixei levar por essa ideia. E sentindo também que estava perdendo tempo, deixei os livros de literatura de lado, porque afinal, não me acrescentariam "nada" de "útil". Eu caí no velho dilema da utilidade, do sentido e do propósito.

Nesse momento, você, que é leitor (e leitora) e que acompanha minhas abobrinhas há anos, acostumado a ler Douglas Adams todo Dia da Toalha, me olha com descrédito diante de tamanha desonra. Sim, desonra, pra tua vaca e pra tua família, e que Mushu me perdoe. Você olha e se pergunta como eu pude me tornar herege e acreditar nessa bobagem. Como tornei isso possível, não sei dizer, mas por sorte, a literatura sempre nos traz de volta.

Uma ficção aqui, outra ali, entre um clássico e outro da literatura — finalmente li A metamorfose e O Médico e o Monstro — eis que resolvo reler A sombra do vento (saudades Zafón <3). E não é que eu estava carregando esse livro só pra tentar convencer o amigo em questão de dar uma chance pra ele? Sentei um minutinho pra relembrar a história, antes de (tentar) fortalecer o espírito do livro o trocando de mãos, e eis que eu estava de volta a Barcelona com Daniel Sempere e O Cemitério dos Livros Esquecidos, e eis que também me lembrei do prazer de ler uma história.

Já dizia Fernando Pessoa que a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida, e usando A sombra do vento como escapismo puro e simples, percebi o quanto sentia falta de mergulhar em uma leitura, sem a pretensão de aprender alguma coisa, sem a pressão de absorver algum conteúdo, e principalmente ler sem me preocupar se eu entendi ou não o último parágrafo. Ler apenas, sem nenhuma cobrança ou preocupação.

Pegando A Sombra do Vento depois de tantos anos, reencontrei não só as palavras de um autor que eu admirava, como também uma velha versão de mim, crescendo no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó... Quem perdeu tempo lendo Zafón vai reconhecer a citação, assim como quem perdeu tempo lendo Conan Doyle vai entender que não devemos nos entulhar com conhecimento que não nos vai ser útil. Entendendo ou não a constante cosmológica da equação de campo de Einstein, ela não vai se alterar. Não vejo utilidade em absorver esse conhecimento, e entre uma perda de tempo e outra, prefiro a perda de tempo que eu gosto.

Nós, leitores, já compreendemos que a literatura é uma mentira que fala a verdade, que não tem bichos na Quinta Manor e que Jekyll e Hyde somos nós mesmos. Já sabemos que faz parte da humanidade contar uma história, e que desde a Pré-história, é assim que aprendemos. A gente entende a literatura que fala do coração e da alma, e que, se conhecer um Hobbit que sai pra viver uma aventura; acompanhar uma menina que rouba livros em meio a um cenário de guerra; rir de um mochileiro que viaja pelas galáxias; questionar o sistema com um clube clandestino de luta é perda de tempo, então, esse tempo vale a pena ser perdido. E eu continuarei, com orgulho, perdendo meu tempo com literatura. 


21/09/2017

A Descida

A descida

No chão, um buraco profundo e escuro, como um poço. Enorme, ocupava quase a vila inteira. Sua outra metade tinha caído lá dentro. Era pequena e frágil, e estava perdida naquele oceano de escuridão. Procurou uma corda para que pudesse resgatá-la. Encontrou uma de suas pontas, grossa, pesada, com centenas de milhares de metros. Deu um nó, e a jogou no poço — a outra ponta estava presa no infinito, atravessando a Terra, impossível de encontrá-la.

A outra metade subiu pela corda, suja e fraca, tremendo e soluçando, balbuciando coisas sem sentido. Sentou-se encolhida no chão. A metade que ficou em cima, a que jogou a corda, a abraçou dizendo palavras de conforto. Tentou aquecê-la com o calor de seu corpo. A metade frágil disse:
— Eu vi coisas inimagináveis.
E a que tinha a força, respondeu:
— Mas agora você está de volta.
— Sim. Mas lá embaixo, perdi meu coração.
A outra, pensando sobre aquilo, já colocando-se de pé, respondeu com confiança:
— Vou buscá-lo.
E a pequena, desesperada, soluçando, sem forças para impedi-la, choramingou:
— Não pode. Você será devorada. Irá se perder. Não encontrará o caminho de volta...
— Eu não tenho medo — retrucou, já segurando a corda para descer — esteja aqui, para quando eu voltar. Cuide da corda.
— Não vá...
— Eu preciso — respondeu, e sem olhar para trás, começou a imensa descida, centímetro por centímetro, com cuidado para não despencar.

No início, sentiu frio. E, a medida que descia, e a luz acima de si tornava-se menor, começou a sentir medo. As paredes do poço eram firmes e gélidas. Não havia nenhum som, e o ar estava pesado. Não via nada abaixo de si. Suas únicas sensações eram as tiras ásperas da corda sob sua pele, e o palpitar apressado de seu coração. A luz tornou-se cada vez menor, um brilho pálido e diminuto acima de si, até extinguir-se completamente. 

Ela continuou descendo e descendo, até chegar a completa escuridão. Encontrou o nó e soube que era o fim da corda. Soltou-se, mas não houve sensação de queda. Não houve sensação alguma, e ela se viu suspensa, incapaz de sentir, ver ou ouvir. Não havia luz, ou calor, nem som. Seu corpo estava adormecido. Não sentia nada em sua pele, nem abaixo dela. Não havia fora, nem mesmo dentro. Ficou completamente só, com seus pensamentos, até não existir mais pensamentos. Até não existir mais nada.

Passou-se um tempo que não era tempo. Horas que não eram horas, até surgir um sussurro, que tornou-se um ruído, até transformar-se em som.

O som tremulou, tomou ritmo e forma. Ganhou luz e começou a brilhar. Recebeu cores, formas e cheiros. Estava vivo, e pulsava. A metade forte voltou a ver, ouvir e sentir, e viu Tudo. Sentiu-se fraca, mas lembrou-se que precisava procurar o coração. Encontrou-o através de Tudo, e segurou-o na palma de sua mão. Guardou no bolso, e Tudo desapareceu. Não havia nada, exceto a memória da metade que esperava lá em cima. Segurou a ponta da corda, e começou a escalar.

Foi subindo, e subindo, e subindo, numa escalada cada vez mais árdua. O coração pesava em seu bolso, e o frio congelava seus ossos. Temeu pela sua vida, acreditou que não conseguiria, mas continuou subindo. Suas mãos sangravam e a corda queimava sua pele. O ar estava frio e congelava seus pulmões. O peito ardia, e o corpo começava a pesar uma tonelada. Mas continuou subindo.

Uma de suas mãos se soltou. Escorregou alguns metros abaixo, e por pouco não se soltou da corda. A mão queimava e ardia, em carne viva. O corpo pendia, suspenso, sustentado por aquela mão tão machucada. Subiria com facilidade se soltasse o coração. Tornaria-se leve e em instantes conseguiria ver a luz. Recuperaria a força que havia perdido, mas a jornada teria sido em vão.

Com dificuldade, segurou a corda com a outra mão. Agarrou-se com força, e continuou subindo, apesar da dor. Estava quase perdendo as esperanças, e sentia que seu corpo iria se desfalecer, quando viu uma minúscula pontinha de luz. Sorriu, e começou a subir cada vez mais depressa. A luz cresceu, e foi crescendo até iluminar todo o poço. Viu sua metade sentada na beirada, esperando. Chegou ao topo e arrastou-se para fora, ajudada por ela. Com dificuldade, sentindo-se fraca e frágil, tirou o coração do bolso e a entregou. A outra o pegou, e o coração aqueceu seu corpo, curando suas feridas e dando cor a sua pele pálida. Estava renovada, e agora, sentia-se forte. 

Olhou sua outra metade, caída no chão, com frio e com medo, as mãos feridas, e ajoelhou-se ao seu lado. Tinha sacrificado sua força para que ela tivesse seu coração de volta. Tornara-se fraca para que ela ficasse forte. Sentiu-se grata. Tocou seus cabelos e ela deixou de sentir frio. Tocou seu rosto e este começou a ganhar cor. As feridas se curaram. Aos poucos, começou a ganhar força, e quando as duas metades tornaram-se fortes, uniram-se em uma só.

11/09/2017

A Estranha-que-não-é-estranha
e uma viagem na escada do ônibus

Conversas com estranhos
Foto por Pexels
Domingo, fim de feriado, dia de voltar para JF. Horário do ônibus: 15:15. Peço carona ao meu pai até a rodoviária. Como sempre, saímos atrasados. Chego na rodoviária e o ônibus já está lá. Subo, pago a passagem e percebo com tristeza que a pessoa a minha frente sentou no último banco disponível. O ônibus SD/JF é roleta, e como tal, está sujeito a todas as situações que acontecem num roleta comum, inclusive a situação "entrar no ônibus e ficar em pé". Vou até o final apenas para me certificar que realmente não tinha mais banco vazio para mim. A decepção em meu rosto fica tão evidente que rola um sentimento de empatia entre os passageiros que estão sentados. Volto até o meio do ônibus e deixo minha no chão, com preguiça de viajar em pé e com peso nas costas.

O ônibus sai da rodoviária e para no próximo ponto para pegar mais passageiros. Sobe uma mulher que, de forma inesperada, senta na escada onde as pessoas descem, de frente para a posta de saída. Olho para ela, surpresa, e antes que mais alguém resolva fazer o mesmo, sento ao seu lado. Só cabem duas pessoas na escadinha. Consigo ver o chão da estrada através do vidro, penso na possibilidade da porta abrir e eu cair na rua. Muito improvável.

Ela olha para mim e ri. Eu digo:
— Já que é assim, vou sentar também.
E ela:
— Mas você ia ir em pé? 
— Sim... Nem sabia que podia sentar aqui.
De fato, pensei na possibilidade, mas tive medo que o trocador me mandasse levantar, na frente de todas aquelas pessoas. Com ela, ao menos, a vergonha seria menor. 
— Iih menina! Já cansei de viajar aqui. Hoje que eu não esperava que o ônibus enchesse tanto, fiquei surpresa quando vi.

07/09/2017

Já se foi o BEDA!
(e algumas considerações!)


Pra quem não está familiarizado com esse universo de blogs — "blogosfera" — BEDA é um projeto coletivo que acontece no mês de Agosto (com uma prévia em Abril) onde vários blogueiros se dedicam a fazer um post por dia, durante o mês todo. Não sei quando começou ou quem teve a ideia inicial, cheguei e já estava assim, mas resolvi participar esse ano, pela primeira vez, porque todo ano via a movimentação que isso gerava e ficava com vontade.

Já adianto que não terminei o desafio. Meu último post foi no dia 25, mas cheguei a escrever um ou dois posts a mais, que acabaram ficando em rascunho por falta de tempo para revisão. Não queria publicar sem formatar. De qualquer forma eu sabia que não chegaria ao dia 31, porque tinha um congresso para ir, que começava no dia 28. Fiquei devendo três posts que gostaria de ter feito sobre o projeto: uma retrospectiva, posts de outros blogs que participaram do BEDA e esse, sobre a experiência com o projeto. Sobre a experiência: foi maravilhosa.

25/08/2017

V - Alberto Caeiro
(Heterônimo de Fernando Pessoa)

V
Foto por sPenincillins


Há metafísica bastante em não pensar em nada. 

O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso 

Que ideia tenho eu das cousas? 
Que opinião tenho sobre Deus e a alma 
E sobre a criação do mundo? 
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
E não pensar. É correr as cortinas 
Da minha janela (mas ela não tem cortinas). 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! 
O único mistério é haver quem pense no mistério. 
Quem está ao sol e fecha os olhos, 
Começa a não saber o que é o sol 
E a pensar muitas cousas cheias de calor. 
Mas abre os olhos e vê o sol, 
E já não pode pensar em nada, 
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
De todos os filósofos e de todos os poetas. 
A luz do sol não sabe o que faz 
E por isso não erra e é comum e boa.

24/08/2017

Sobre o tempo, mais uma vez

Sobre o tempo
Foto por Obpia30
Sentar todos os dias e tirar uns minutinhos do meu tempo para escrever é uma das poucas formas que encontrei de não sucumbir a correria do dia a dia. Tenho uma série de obrigações a cumprir, roupas para lavar e coisas para fazer, e preciso sair em menos de uma hora. Tudo o que fiz desde que acordei foi resolver pendências, algumas do dia anterior, correndo contra o tempo, enquanto o prazo de deixar tudo isso pronto fica cada vez mais próximo.

Em julho, comecei a aprender crochê e violão, mas faz quase uma semana que não pratico nenhuma das duas coisas, porque me parece um desperdício de tempo me dedicar a isso, quando na verdade poderia estar lendo todos os textos das aulas — ou quem sabe, escrevendo aquela resenha que o professor pediu, e que já está em cima da hora. A verdade é que estamos todos assim. Faz um bom tempo que não converso de verdade com nenhum de meus colegas porque não podemos parar para fazer isso. Nós nos sentamos para conversar com hora marcada para levantar e ir embora. Estamos constantemente checando o relógio. Não podemos parar. Escrever para esse blog ainda me faz dar uma pausa nesse ritmo — mas veja bem, estou de olho no relógio, porque preciso sair em meia hora. Vai dar tempo de terminar esse texto até lá? Não posso me atrasar.

Sinceramente, às vezes me pergunto se existe algum sentido em fazermos o que fazemos. Se no final, toda essa correria e afobação vai nos trazer algo diferente do desespero e ansiedade gerado por estarmos constantemente lutando contra o tempo. Se vai valer a pena. Ou se estamos apenas seguindo no automático, sem pensar a respeito, como uma amiga me disse "enxergando tudo como se já estivéssemos aqui há séculos, acostumados com tudo". Seria mais fácil nunca fazer essas perguntas. Se eu pudesse escolher nunca perguntar, o que eu escolheria? Ser ou não ser?

Penso que, por não ter mais pelo que sofrer, exageramos nosso próprio sofrimento. Exageramos o que sentimos para podermos sentir algo. Nós progredimos tanto que não temos tempo para nada que não seja mais progresso — e o resultado disso é que, sem tempo para se dedicar aquilo que só tem beleza (a arte, a música, poesia, dança...), invertemos a situação e passamos a colocar beleza naquilo que só é útil. Enfeitamos nossos diplomas, trabalhos e salários com um tom poético e nos forçamos a acreditar que é isso que queremos. Viver às custas de um salário indigno e uma jornada de trabalho miserável, porque é disso que precisamos. Mas é claro que, no fim, isso é apenas eu fazendo drama. Já se passaram trinta minutos e eu não posso me atrasar pro meu compromisso. Depois de todo esse discurso, continuo seguindo no automático, correndo contra o tempo, fazendo exatamente aquilo que estou criticando.



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23/08/2017

#JFpramim e o Desafio do Cavalo do Contra

Museu Mariano Procópio

Hoje fui pela centésima vez, dar uma volta no Museu Mariano Procópio. O museu fica perto da minha casa e tem uma vista linda. Gosto de dar uma volta por ele sempre que quero ficar sozinha e fugir um pouco do barulho do centro da cidade. Cresci em bairro, com barulho de galinha e cachorro, e o som constante de carros, ônibus, músicas e pessoas na minha rua, às vezes me incomoda. A foto que ilustra o post foi tirada por mim, no museu. Minha intenção hoje, ao ir para lá, era apenas ler um texto para um exercício de amanhã e comer alguns biscoitos. Nem mesmo estava carregando minha compacta, que costumo levar quando quero tirar fotos em algum lugar. Eu não queria tirar fotos. Faz um bom tempo que não quero fotografar nada, e estava apenas levando a vida, assim.

Hoje resolvi que visitaria a casa. A casa é uma parte do museu (a casa rs) com algumas peças expostas, que diferente do resto da área, tem algumas regras. Você não pode entrar de mochila nem fotografar com flash. Não uso flash em nenhuma ocasião, mas me incomoda que enquanto eu olho as peças, tem alguém me observando — os funcionários, que precisam ver se não vou tocar em nada, e garantir que as peças continuem inteiras. Eu quase nunca vou lá, justamente porque sempre que vou, a casa está vazia, e eu sou a única pessoa olhando todas aquelas peças, pela milésima vez.

22/08/2017

[Tag] Os últimos

Tag Os últimos
Foto por Utroja0
Estou me sentindo orgulhosa porque demorei exatos 22 dias para recorrer a uma TAG nesse mês de BEDA. Tá certo que pulei alguns dias, por necessidade, mas hoje é 22 e eu ainda tiro um tempinho no final do meu dia pra pensar em algo pra postar — nem que seja pra ir dormir sem postar nada. Passamos da metade do projeto sem surtar, e como eu comecei impulsivamente e não planejei absolutamente nada, podemos considerar que estou me saindo bastante bem. Como não tenho nenhum rascunho e ainda não recorri a tags, roubei uma Tag do blog da Ana, que achei bacaninha de responder. Bora lá!

A última série que você viu: Última série foi Preacher. É um pouco violenta, mas a gente só quer passar o tempo certo?
O último filme que você viu: Filme...? Foi Viktor Frankestein. Já tinha visto, mas foi bacana assistir de novo, quase não lembrava dos detalhes.
A última pessoa que você viu: Estou olhando para meu irmão nesse exato.
A última música que você ouviu: Eu tava ouvindo um blues no Spotify que não me lembro o nome. A última que lembro o nome foi Smoke on the Water
O último grupo favorito: Meudeusdocéu grupo não. Odeio todos os grupos.
A última roupa que usou: Calça jeans, camiseta e moletom.
A última coisa que comeu: Pão torrado com queijo e mortadela :p
O último doce que comeu: Um bombom, acho.
A última conversa do WhatsApp: Tava pedindo informações a uma amiga sobre como chegar na casa dela.
A última foto favorita (bônus): A que está ilustrando o post, achei super fofa.



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20/08/2017

"Vocês se comparam com quem, se está todo mundo assim?"

Se comparar

Tive hoje confraternização de um ano da Liga Acadêmica que eu participo. Voltei de carona com mais três meninas, muito queridas. Duas do segundo período, uma do sexto, e eu, do oitavo. Foi a primeira vez que percebi que era a pessoa com mais experiência na roda de conversa. O tempo voa.
Conversávamos sobre nossa experiência com os estudos. Falávamos sobre como nos sentíamos no papel de estudante. Seguiu-se o diálogo:
— Eu acho que sou muito relaxada — disse uma delas. — Deixo os materiais se acumularem, fico adiando, depois eu piro. 
— Também — disse a outra — sou uma péssima aluna. Deixo tudo pra véspera, fico desesperada. 
Todas concordamos, fazíamos o mesmo. 
— Até em relação a comida. Me alimento mal, só como porcaria, queria ser como as outras pessoas que se alimentam direito.
E eu, ouvindo aquilo, e percebendo que nós quatro repetíamos o mesmo discurso, perguntei:
— Gente, vocês se comparam com quem, se está todo mundo assim?
Foi uma risada coletiva. "Melhor reflexão da noite", segundo uma delas. A gente se compara com alguém que nem mesmo existe.


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17/08/2017

A Fila das Lojas Americanas

A fila das Lojas Americanas

Lá estava eu, na fila do caixa das Lojas Americanas — uma fila enorme — , enquanto a mulher que estava a minha frente não parava de reclamar do quanto a fila estava demorando. Tinha apenas uma única atendente e um rapaz estava comprando um produto eletrônico, que necessitava de todo um check-up que parecia demorar horas. Depois de testar toda a aparelhagem, rapaz e atendente começaram a discutir os termos de garantia, o que levou um bom tempo, e não demorou a gerar uma indignação coletiva na fila das Americanas. Nada melhor para unir seres humanos do que um suposto serviço mal feito.

Quando a indignação começou a ficar muito barulhenta e todos da fila se juntaram à mulher para reclamar, a atendente, meio puta da vida, apontou uma placa meio escondida que dizia que aquele caixa era exclusivo para produtos eletrônicos, e quem quer que quisesse ir nele com outra coisa teria de arcar com a demora no serviço. Como se quisessem justificar a reclamação, A Fila, que já estava se comportando como um ser único, disse que a placa estava escondida demais e que ninguém ali tinha visto.

Foi então a vez da atendente reclamar, dizendo que o caixa era específico para produtos eletrônicos e que a fila demorava porque, citação direta: "algumas pessoas vão até o final da loja, pegam uma barra de chocolate e vem nesse caixa aqui, pra não ter de sair na rua lá de trás.". Nesse momento, eu, que estava apenas sendo um ser silencioso na A Fila, olhei para a barra de Lakta na minha mão e tentei fingir que aquilo era o modelo mais recente de algum Smartphone top de linha, tão top que até parecia chocolate. Enquanto meu rosto corava de vergonha, a mulher à minha frente engatou num papo com a atendente sobre "essas coisas deveriam ser avisadas" que durou mais tempo que o rapaz do eletrônico. Por fim, ela foi embora, e eu passei minha única barra de chocolate com o constrangimento de quem ouve "a noite vai ser boa ein!" ao comprar preservativos. Desde então, tenho evitado pegar longas filas pra comprar chocolate.



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15/08/2017

Textos incríveis que li esses dias


Nem só de desespero e angústia vive um ser humano. Também tive muita coisa boa nos últimos dias, incluindo textos maravilhosos espalhados pela blogosfera afora. Visitei muitos blogs nesses tempos de BEDA e li várias coisas interessantes que merecem ser compartilhadas por aqui.


Pra começar, um texto muito bacana no DoisBits sobre uma pergunta complicada: O que eu quero ser? que combinou demais com a reflexão da Luana sobre as xícaras do Chapeleiro, que serviu de metáfora para a situação no seu curso.

Tem o texto de retorno da Samyle, com o título de Em Prosa, e o texto de quase despedida da Ana, ou como ela mesma disse, Provavelmente, uma pausa.

O Bruno explicou a Diferença entre destralhe e minimalismo, e o Thiago escreveu sobre Convenções Sociais. Você não é o único que se incomoda com essas coisas, Thiago.

A Regina escreveu um poema sobre Celulares, o tempo e as imagens, que casou com o post da Mariana Menezes (quase minha xará) "estamos nos tornando reféns das redes sociais?".

Tem post da Mia sobre não se levar tão a sério, e uma reflexão incrível da Bruna sobre namorar alguém que ama sua arte.

Pra finalizar (e como menção honrosa) cito o post da Luana sobre as cartinhas do 31 de Março, que enviei para ela. Ela teve todo um cuidado ao tirar as fotos e eu fiquei muito feliz. Muito obrigada chuchu ♥


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Tentando escrever poesia

Tudo é sofrimento
Dizia a Palavra
Que eu não compreendi
Tudo é sofrimento
Eu repeti
Ainda sem compreender
Como alguém pode resumir
Toda a beleza da vida
No ato de sofrer

E então, desvio meu olhar
À esquerda e à direita.
No rosto dos colegas
No bom dia do porteiro
Nos passantes pela rua
Eu vejo o sofrimento

Começo a compreender
Compreender o sofrimento
Compreender que sofremos
Mas não temos tempo
Não temos tempo
Para o sofrimento

Tem sempre a próxima aula
E vamos perder a chamada
E o horário de almoço é curto
E precisamos bater o ponto
Vamos perder o ônibus
Tentamos dormir cedo
E enfrentar mais um dia

E o sofrimento
Esse que está estampado
Vai ficando de lado
Porque não temos tempo

E nós
E nossos colegas
E o porteiro e seu bom dia
E os passantes pela rua
Continuam sofrendo
Porque não temos tempo

Encontramo-nos doentes
Mas não podemos parar
Porque não temos tempo

E a doença aumenta
Agrava
Consome
E não nos damos conta
Porque não temos tempo


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13/08/2017

"Só sei que não estou perdido"


Hoje eu me peguei pensando, enquanto lavava meu cabelo, quando foi que me perdi no caminho da minha própria vida. Quando foi que, eu mesma, por livre vontade, dei aos outros o direito de acharem que sabem o que é bom pra mim. Quando foi que eu comecei a seguir conselhos a torto e a direito de gente que mal me conhece, e de algumas pessoas que me conhecem um pouco, como se eu fosse algum tipo de ser incapaz de decidir ou pensar por si próprio, necessitando de alguém que me apontasse o caminho. Me tornei café-com-leite, uma figurante na minha história.  

Sempre fui teimosa. Isso me trouxe um bocado de problemas, mas apesar deles, eu sempre soube o que eu queria. Sempre soube quem eu era, o que me servia e o que me faria bem. Hoje me dei conta de que nos últimos anos não tem sido assim. Tenho me arrastado de um conselho a outro, uma decisão a outra, decisões que não foram tomadas por mim. Percebi que nem mesmo sabia se as coisas que eu estava fazendo, fazia por vontade própria. Tive um estalo quando notei que estava numa situação desconfortável, não porque eu não sabia sair dela, mas porque me disseram que seria bom para mim estar nessa situação. Não foi surpresa perceber que não só não era bom, como eu já sabia disso, mas insistia em seguir um caminho que não é meu. Como diz o meme: "que que eu tô fazendo com a minha vida?". Por que eu estou me deixando levar pelo que os outros acreditam? Quando me coloquei nessa situação?

Como diria Renato Russo: "não sei onde estou indo, só sei que não estou perdido". Não sei exatamente o que quero ou como conseguir o que quero, o que não significa que qualquer coisa serve. Eu sei muito bem o que não serve. E isso já me dá (e retira) várias direções. Sempre segui meu próprio caminho e não vai ser diferente agora, a única mudança é que antes de seguir esse caminho, eu preciso encontrá-lo.


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11/08/2017

Sobre blogs de "criação de conteúdo"

Foto por Edar

Tem duas coisas que me irritam muito em blogs sobre criação de conteúdo (ou blogs sobre blogs, com dicas pra blogs, enfim...). Essas duas coisas são:
  1. Gente que mal começou na blogosfera e sai por aí dando dicas;
  2. Cagação de regra no blog alheio, disfarçada de "você só vai ter um blog de sucesso se..."

Sobre a primeira, nada soa mais irônico que post falando sobre como obter mais engajamento/comentários em um post que não tem comentário nenhum. Eu me pergunto o que passa pela cabeça das pessoas. A pessoa mal tem um mês de blogosfera e já está dando dicas pra ter "sucesso" com o blog. Ou então, como se não bastasse, ela entrou na blogosfera com um blog sobre isso. É como se eu tentasse vender para você um livro sobre vendas, sem ter vendido coisa nenhuma (exceto o livro). É a lógica de (algumas) auto-ajudas: o indivíduo tenta te ensinar a conquistar coisas, mas a única conquista dela é tentar te ensinar isso. Como dizia sabiamente Douglas Adams: "a qualidade de qualquer conselho que uma pessoa pode dar deve ser avaliada de acordo com a qualidade da vida que essa pessoa levou." A qualidade de um conselho sobre blogs deve ser avaliado de acordo com o blog que dá o conselho.

10/08/2017

Amélie Poulain e as pequenas coisas

Amélie Poulain e as pequenas coisas
Foto por Boknam2
Ontem minha professora comentou do quanto estamos anestesiados com a violência. Falou de filmes franceses e americanos. Pensei a respeito, percebi que concordava com ela. O último filme francês que vi, passei a maior parte do tempo pensando "que filme parado, não acontece nada!". Nada. Desde quando fazer amigos, conhecer pessoas novas, visitar um lugar interessante passou a ser considerado nada? Quando foi que passamos a considerar as tragédias as únicas coisas relevantes nas nossas vidas? Quando foi que nós começamos a nos deparar com a dor e pensar que existem outros que sofrem mais? E porque é que criamos essa noção de "mais"? Dor não deveria ser motivo de cuidado, em qualquer nível?

Eu me lembrei de Amélie Poulain e das pequenas coisas. Na sensibilidade do filme, e em como a protagonista encontra prazer em pequenas coisas: enfiar a mão num saco de grãos, jogar pedras no lago... Tentei pensar em coisas que me aconteceram recentemente, coisas que me trouxeram alegria, mas que eu não pude perceber por estar focada demais nas tragédias da vida. Eu poderia fazer uma lista gigante, mas não acho que seja necessário. Essas coisas estão por aí: no banho quente que a gente toma num dia frio, no vento que seca o suor do rosto depois de uma caminhada, na risada de um amigo que entendeu a piada, no momento em que você deita na cama, quando está cansado.

Talvez seja mesmo questão de encontrar um equilíbrio. Tornar-se sensível as pequenas alegrias, mas sem cair no extremo de ignorar a dor e a tragédia. Porque elas existem e também fazem parte. E precisamos lidar com elas.


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09/08/2017

DIY: Como complicar a vida em passos simples

Como complicar a vida
Foto por Oldiefan

Já que está na moda postar tutoriais, resolvi trazer um tutorial de "faça você mesmo" muito simples e fácil de seguir sobre como complicar a vida

Material:


Uma vida;
Pensamentos;
Você mesm@;

Passo a passo:


Existem várias formas de complicar a vida, algumas pessoas tendem a complicar mais, outras menos, mas no final todo mundo complica um pouco. A forma como cada um complica a vida é uma mistura da personalidade da pessoa juntamente com os passos abaixo. É claro que essa é a forma que eu uso normalmente, mas você pode adaptar de acordo com você.

08/08/2017

Um introvertido e um extrovertido conversam

Foto por Victor Filippov
Um introvertido e um extrovertido conversam. O extrovertido diz:
— Você tem características que não são valorizadas socialmente. Características que são importantes, mas não tem valor. Você fica quieto no seu canto observando tudo, cumprindo suas obrigações, e no fim, quem consegue as melhores oportunidades é aquele que mais fala, que tem mais carisma...
O introvertido completa:
— ...O que tem o melhor discurso, que vende melhor o peixe.
— Exatamente! Os melhores cargos vão para aqueles que possuem o melhor discurso, que se destacam mais, pelo que falam.
— Sim. Pessoas como você, que conversam muito, que criam vínculos, que correm atrás dos outros. Pessoas como você, que são lembradas quando surge uma oportunidade. Pessoas que todos sabem nome e sobrenome. Pessoas que a popularidade conta mais que a competência.
O extrovertido, que não tinha se dado conta que é o extrovertido da história, se sente culpado. O outro, percebendo a culpa, tenta reconfortá-lo:
— Não é culpa sua. É só como as coisas funcionam.
— Eu sei — diz, e promete: — Suas características vão ser valorizadas um dia, você vai ver. Você vai se dar bem.
O introvertido sabe que, caso não se torne como o outro, a batalha será árdua. Percebe também que o amigo está fazendo aquilo que lhe é característico: preenchendo o silêncio com palavras vazias. Perdido em pensamentos, faz também aquilo que faz de melhor: não diz nada, deixando a conversa morrer num silêncio constrangedor. Manteriam um belo equilíbrio se conseguissem emprestar um pouco de si para o outro.

Juro que não estou de recalque de extrovertidos. Mas olha só a imagem que achei enquanto procurava algo pra ilustrar o post. Tá de sacanagem né?



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06/08/2017

Dia Comum

Eu passei mal ontem e acabei pulando um dia de BEDA — mas tudo bem. Passei o dia a base de biscoito de polvilho e Gatorade, que me lembrou uma época da minha infância em que eu passava mal todo dia. Não tive nenhum sentimento de nostalgia, só fiquei contente que ao menos agora eu acho o gosto do Gatorade bastante aceitável. Aproveitei para terminar o livro que eu estava lendo, chamado Carbono Alterado, e como estou melhor, hoje escrevi uma resenha. Pretendo tirar umas fotos dele, já que acho fofinho quem faz isso *--*

Falando em livros, recebi um livro ontem pelo correio, do Grupo Editorial Record, e também uma proposta de troca no skoob. Primeira vez que faço uma troca pelo skoob e estou achando maravilhoso, libero espaço na minha estante e ainda faço os livros que tenho circular. Já dizia Zafón “Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito cresce e a pessoa se fortalece.” O espírito do livro vai se fortalecer logo logo, quando ganhar uma nova leitora. 

Meu domingo está com cara de domingo, e esse post também. Sou só eu, ou vocês também pretendem passar o dia todo de pijama?


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04/08/2017

O Zen e a arte da escrita - Ray Bradbury

O zen e a arte da escrita - Resenha
Autor: Ray Bradbury
Editora: LeYa Brasil
Páginas: 168
Sinopse: Neste livro exuberante, o incomparável Ray Bradbury compartilha sua sabedoria, experiência e estímulo de uma vida de escritor. Aqui estão dicas sobre a arte da escrita dadas por um mestre do ofício. Um livro que reúne tudo, desde encontrar ideias originais até desenvolver a própria voz e o estilo, bem como leituras, impressões da infância e os bastidores da notável carreira de Bradbury como um autor fecundo de romances, contos, poemas, roteiros de filmes e peças de teatro. O Zen e a arte da escrita é mais do que um simples manual para o aspirante a escritor, é uma celebração do ato da escrita, que vai encantar, exaltar e inspirar o escritor em você.

Decidi ler esse livro quando li em um blog (infelizmente não me lembro qual) uma resenha cheia de elogios. Resolvi colocá-lo na lista de desejos do skoob, mas percebi que o livro já estava nela há bastante tempo. Um livro, pensei, que mistura Zen e escrita, duas coisas que amo muito nessa vida? Eu precisava ler! Então aproveitei que estou pensando em adotar um Kindle, para ler o ebook no aplicativo Kindle do celular. Estou fazendo alguns testes para ver se me adapto a leitura digital, para então - quem sabe - investir em um Kindle de verdade.

Comecei a leitura de O zen e a arte da escrita muito empolgada. Esse é, acredito eu, o segundo ou terceiro livro que eu leio pelo Kindle, porém em nenhum deles usei todas as funções disponíveis no aplicativo. Nessa leitura, fiz questão de fazer anotações e destacar frases, e posso dizer que foi uma experiência muito nova, nunca na vida marquei meus livros físicos, e poder fazer isso no livro digital me deu uma sensação de liberdade muito grande, estou quase marcando meus livros físicos também. Mas vamos deixar o Kindle para outro post dedicado a ele, vamos voltar ao Zen e a arte da escrita.

03/08/2017

Quando Buda me fez chorar

Quando Buda me fez chorar
Foto por Silentpilot

Quem me conhece geralmente me acha uma pessoa fácil de conviver. Não estou falando isso como quem está se exibindo, apenas é essa a imagem que eu passo. Se eu não consigo trazer algo de produtivo, faço o máximo possível pra não causar dano a ninguém. Apenas não deixar ninguém pior do que estava quando cheguei. Penso que isso é o melhor que eu posso fazer, por qualquer um. Isso significa que é raro eu ser dura ou grossa com alguém — se fui, ou foi sem intenção, ou não estava bem. Conscientemente evito trazer mais sofrimentos, por que acho que as pessoas já sofrem demais. A vida que cada um leva é sofrimento suficiente.

Em contrapartida, eu sou geralmente meu carrasco. Nunca perdoo meus erros: carrego eles comigo e me lembro até mesmo das coisas mais simples que fiz de errado. Sempre exijo demais de mim: tudo que faço tem de chegar o mais próximo possível da perfeição. Estou sempre me criticando e me colocando pra baixo, mesmo sabendo que estou fazendo meu melhor. É como se eu tivesse uma vozinha na minha cabeça que pega o pior de mim, ainda que seja algo mínimo, transforma aquilo num monstro e esfrega na minha cara. De todas as pessoas que me trazem problemas, eu sou a pior delas. Meu inferno sou eu mesma. Estou sempre ocupada lidando comigo.

Um dia estava navegando no Pinterest, que às vezes me sugere algumas imagens relacionadas a filosofia budista. O Budismo é uma das poucas filosofias que não só tenho interesse em me aprofundar de verdade, como também é uma filosofia que está sempre mudando minha forma de ver as coisas, e aquilo que coloco em prática. Eu gosto, e acho que se encaixa na minha visão de mundo. Como estou sempre salvando algumas frases budistas na minha pastinha, é natural que o Pinterest use seu algorítimo pra me fazer salvar mais imagens. Nesse dia, essa imagem apareceu:

Buda "Se sua compaixão não inclui você mesmo, ela é incompleta"
"Se sua compaixão não inclui você mesmo, ela é incompleta"
Eu nem mesmo precisei pensar a respeito do que estava lendo. Não foi necessário. Tão logo terminei de ler a frase, as lágrimas começaram a descer em cascata. Percebi o que estava fazendo e isso foi doloroso. Passei a madrugada toda chorando, e no outro dia, não conseguia esquecer o que li. Ficou martelando na minha cabeça, durante a aula, durante o caminho pra casa, durante o almoço, o banho... Comecei a perceber que, por mais que tentasse trilhar um caminho espiritual, não chegaria muito longe se eu não me incluísse nele, e se esse caminho não servisse pra mim. Na verdade, enquanto eu fizesse uma diferenciação entre "eu" e "os outros" ficaria rodando em círculos nesse caminho. Você não poderia considerar uma pessoa verdadeiramente paciente se ela deixa de ser paciente com alguém, mesmo que esse alguém seja ela mesma. E isso inclui todas as outras características que tentamos melhorar. 

Algumas semanas depois, um amigo me deu um conselho — na verdade uma bronca — que complementou a frase. Na verdade, foi a bronca dele que me fez entendê-la por completo. Ele me criticou por eu mesma me criticar, deixando bem claro que eu sou uma pessoa como qualquer outra, sujeita a passar pelo que todos os outros passam — e cometer os mesmos erros que eles. Foi doloroso ouvir isso, mas também necessário. Por mais estranho que possa parecer, me fez abrir os olhos para o que estava bem óbvio: eu nunca trataria nenhum dos meus amigos da forma como eu trato a mim mesma. Nem mesmo consigo me imaginar direcionando aos outros as mesmas palavras que uso para mim. Não combina comigo. Não faz parte de como eu quero passar por esse mundo. 

Tive que começar um doloroso processo de perdoar a mim mesma. Um processo nada fácil e que não posso dizer que está terminado: cada dia um erro "imperdoável" aparece, cada dia me sinto menos digna de receber o tratamento que daria a qualquer um, cada dia a vozinha aparece me dirigindo palavras duras que eu preciso lutar para não aceitar como verdade. Mas estou fazendo o meu melhor, tentando ser para mim o que geralmente sou para os outros: uma amiga, disposta a ajudar, disposta a ouvir, fazendo o possível pra não deixar as coisas pior do que estavam. Reconhecer que temos qualidades também não é fácil, tem sempre aquela parte de si  mas faz parte do processo. Chegarei lá.

02/08/2017

Séries que eu acompanho: Preacher

Série Preacher AMC

Segundo dia de BEDA e eu estava como? Isso mesmo, pensando em largar pra lá. Mas vamos que vamos que ainda faltam 29 dias pro mês acabar. 

Apesar de sempre responder que assisto muitas séries quando me perguntam o que ando fazendo, não sou de assistir tantas séries assim. Geralmente começo a assistir uma série nova quando ou me indicam muito, ou quando alguns dos meus irmãos começam a assistir, e eu acabo me interessando

Foi assim com Preacher. Meu irmão estava assistindo no quarto, passei por perto, parei um tempo para ver e acabei me interessando. Ele já estava um pouco avançado, mas assisti os primeiros episódios depois, por conta própria, e comecei a acompanhar a série sozinha. 

01/08/2017

BEDA #1 - Sentimentos e as palavras que usamos para descrevê-los

Sentimentos e as palavras que usamos para descrevê-los
Foto por FlashBuddy

Resolvi que esse ano participaria do BEDA (Blog Everyday August - um desafio para blogueiros postarem todos os dias, durante o mês de Agosto), mesmo sabendo que eu tenho dificuldade de postar duas vezes por semana. Fico neurótica quando começo um projeto novo e geralmente abandono pela metade, mas sem neuras com o BEDA, a ideia é vir aqui uma vez por dia e postar algo que eu esteja com vontade de postar, e se não der, de boas.

Minhas aulas voltaram hoje, e durante a disciplina de estágio, minha professora falou um pouco de emoções. Fiquei a aula toda pensando no que ela disse, e senti que queria escrever algo sobre isso. Na nossa língua, existem muitas palavras para descrever emoções e sentimentos. Muitas mesmo. Mais de quinhentas, talvez. E, por mais que existam palavras para os mais variados sentimentos, nós tendemos a usar sempre as mesmas palavras para descrever como estamos nos sentindo. Por exemplo, "estou feliz", "estou triste". Como você está? "Estou bem". Como assim bem? "Bem" não é exatamente um sentimento, é?. 

30/07/2017

Sobre passar noites lendo blogs de gente esquisita

Passar a noite lendo blogs de gente esquisita
Foto por Redioactive

Só pra constar: esquisito pra mim é elogio. Não vou entrar em detalhes sobre meu gosto duvidoso, apenas aceitem que esquisito é elogio

Então, eu tô de férias, não tenho nenhuma preocupação importante no momento, o que significa que minha mente está criando o máximo de preocupações desnecessárias possíveis, até eu conseguir algo de verdade para me preocupar. Para evitar deixar meus pensamentos vagaram por aí, ando focando em fazer coisas, que incluem gastar algumas horas das minhas madrugadas lendo blogs de gente que são tão parecidas comigo que eu fico preocupada. 

Um dos blogs que li é o Não sente ao meu lado. Eu adorei o nome. A autora se chama Raquel, e ela tem um jeito engraçado de contar coisas extremamente simples do cotidiano, como quando uma criança da escola apareceu com maquiagem de cola, ou a epifania que teve respondendo um meme do Tumblr (talvez não sejam coisas tão simples assim). Sobre a tal epifania, se serve de consolo para a Raquel, eu não só não conseguiria responder nenhuma pergunta, como também não consegui achar a tal lista, visto que já nem sei mais como se mexe num Tumblr. 

Tem aqueles posts que te dão vontade de chamar a Raquel e dar um abraço nela, e tem aqueles que você se identifica tanto que parece que foi você mesma quem escreveu. Bate até uma bad. A verdade é que o blog da Raquel é cheio de sentimentos, e você sabe que ali tem um blog escrito por um ser humano, sem nenhuma preocupação de agradar ou conseguir o que quer que seja. Ler o Não sente ao meu lado é como ver a alma da Raquel, e é isso torna tudo mais bonito. 

Eu praticamente li o arquivo inteiro do blog (na verdade vou ler todo, depois de digitar esse post), e achei incrível como aparentemente tudo o que acontece na vida da Raquel sempre acaba dando errado. Até a reforma sofreu atraso porque o pedreiro estava deprimido (e os outros não aceitaram o trabalho). Quando a Raquel fala dos três cérebros conflitantes, ela define a minha vida. Eu tava meio tristinha que a Raquel parou de atualizar o Não sente ao meu lado em 2013, e eu deveria ter escrito tudo sobre a Raquel no passado, mas fiquei feliz de saber que ela continuou sua vida de blogueira escrevendo no Draminha, que eu vou deixar pra ler em outra madrugada.

22/07/2017

"Nós precisamos rir dos nossos problemas, Marina"

Rir dos nossos problemas

Amigo meu, que não vou citar o nome porque não teve a decência de vir ler meu blog — apesar de ter prometido ler umas quinze vezes, em vão — me disse uma vez, citando literalmente que "nós precisamos rir dos nossos problemas, Marina". Fiquei foi com muita raiva ao ouvir isso, e pensei o seguinte: "já não basta precisar ter de arrumar força não sei de onde pra lidar com tudo isso, ainda preciso encontrar criatividade e senso de humor pra fazer piada dos meus problemas". Mas é claro que, eu sou eu, e reagi rindo e concordando, porque achei que ele ficaria magoado se eu deixasse claro o quanto achei aquela ideia estúpida. 

O que foi bom, porque se eu tivesse deixado claro o quanto achei aquilo estúpido, seria muito custoso pra mim perceber que ele tinha razão. Veja bem, a ideia não deixa de ser estúpida, mas também não quer dizer que não esteja certa. Eu levo meus problemas a sério demais. De fato, eu praticamente alimento meus problemas levando eles a sério demais. É como se eu pegasse meus problemas, olhasse pra eles e pensasse "wow, isso é muito sério! Vamos tratar isso com toda a seriedade", e quanto alguém olha pra eles e faz uma piada, ou tenta fazer uma piada, ou sugere que eu deveria fazer uma piada, eu fico seriamente ofendida. "Como assim você não está levando meus problemas-sérios a sério? Não ria nem insinua que eu deveria rir disso".