20/03/2017

O lado bom da vida - Matthew Quick
(livro e filme)

O Lado Bom da Vida

O Lado Bom da Vida foi o primeiro livro que eu li esse ano. Era um daqueles livros que estavam na minha estante já há bastante tempo, mas eu nem me lembrava de ter ele. Não sei nem dizer se ganhei ou comprei, nem tinha tanta vontade de ler, mas eu quis dar uma chance por ser do Matthew Quick, que escreveu Perdão, Leonardo Peacock, uma leitura que — estou sempre repetindo aqui no blog — me marcou muito. 

Se em Perdão, Leonard Peacock o autor trata de um tema delicado como suicídio, em o Lado Bom da Vida ele escreve sobre um tema tão delicado quanto: transtornos mentais, e como eles afetam a vida das pessoas. 

No livro, Pat acaba de ser liberado do hospital psiquiátrico, graças ao esforço de sua mãe, e está voltando para casa. Inicialmente, nós não sabemos o que aconteceu ou como ele foi parar lá, somente conseguimos entender que foi algo muito ruim, que abalou Pat de tal forma que ele não consegue se lembrar do acontecido com clareza. De volta para casa, Pat se prepara para o que ele chama de "Fim do Tempo Separados", que é o momento em que vai reencontrar sua esposa, Nikki. Sua preparação inclui ser um bom esposo para Nikki, o que significa ler os livros que ela indica para seus alunos (Nikki é professora), malhar e se alimentar bem (Pat é obcecado com academia), fazer coisas que tinha prometido a Nikki que faria, ser, enfim, uma boa pessoa. O problema é que Nikki pediu divórcio, e fica claro para o leitor que talvez o Fim do Tempo Separados nunca chegue. Mas Pat acredita que eles vão voltar, por mais que todas as evidências apontem o contrário: todos evitam mencionar o nome de Nikki, as fotos e lembranças do casamento dos dois "misteriosamente" sumiram e Nikki tem uma ordem de restrição, proibindo Pat de ficar perto dela.


O Lado Bom da Vida
"Sou muito mais louca que você"
Nesse ponto o filme estraga completamente a surpresa. Ele começa pelo final, já contando o motivo de Pat e Nikki terem se separado. Ao contrário do livro, no filme Pat não tem nenhum bloqueio e consegue se lembrar perfeitamente do que aconteceu. Toda a história do livro gira em torno dele ter bloqueado essa lembrança, e a situação de Pat se resolve quando ele se lembra do acontecido, o que fica sem sentido no filme. Fiquei feliz de ter lido o livro primeiro, já que o filme parece ser outra história, mas com os mesmos personagens. 

Pat também acredita que a vida dele é um filme, e que, como todo filme, ele vai ter um final feliz, que vai ser seu reencontro com sua esposa. Essa visão é importante para ele, e o faz tentar ver o lado bom de tudo, mantendo ele num otimismo meio delirante. É interessante notar como a narrativa do livro parece distorcida, e como a gente vai, aos poucos, percebendo que o que Pat fala "foge" um pouco da realidade. Com o tempo comecei a questionar tudo o que ele falava, até as peças começarem a se encaixar e sua história fazer sentido. Você se sente dentro da mente de Pat, mas o filme não proporciona essa sensação (dez pontos para os livros!), inclusive Pat não tem essa ideia de que a vida dele é um filme, até porque ele está num filme de fato. 

O Lado Bom da Vida é uma leitura muito envolvente. Eu queria muito que o Pat superasse a Nikki, e entendi perfeitamente a frustração que os personagens sentiam quando ele começava a mencionar ela em todas as ocasiões, mesmo depois de tudo apontar para o fato de que ela não voltaria. A dinâmica familiar também é muito interessante. O pai de Pat mal fala com ele, por ter vergonha do filho ter ficado internado, e evita a todo custo tratá-lo como alguém que tem um transtorno mental. A relação dos dois gira em torno do futebol, e toda vez que o time deles perde, a casa fica conturbada (no filme, isso é justificado pelo pai de Pat fazer apostas, mas no livro, ele é apenas um torcedor fanático que desconta a raiva na família). A mãe e o irmão são protetores, tentam poupá-lo de todo tipo de sofrimento, até mesmo buscando esconder que o irmão tinha se casado enquanto Pat estava internado. A impressão que tive é que eles tratavam o personagem como se fosse de vidro.



Outros dois personagens importantes são Cliff, o terapeuta. A relação deles fica apagada no filme, mas no livro o terapeuta tem papel fundamental na recuperação de Pat; e Tiffany, uma garota que entrou em depressão depois de perder o marido. Tiffany é como Pat, ambos passaram pelas mesmas coisas e são tratados da mesma forma pelas outras pessoas. Pat a vê como uma mulher "louca", pois não consegue enxergar seu próprio transtorno, mas Tiffany o vê como é e sabem que são parecidos. A relação dos dois causa estranhamento no início. Tiffany sai para correr atrás de Pat e eles mal se falam. São extremamente sinceros um com o outro, chegando a se insultarem, mas ainda assim não se afastam. É como se eles tivessem uma forma de compreenderem a verdade que as outras pessoas não possuem. No filme, Tiffany fala "nós não mentimos como eles" e isso fica bem claro. Sendo os dois considerados "loucos", eles não precisam usar uma máscara social, eles não fingem nem disfarçam, dizem o que tem de dizer, mesmo que não agrade as outras pessoas. É interessante observar como o autor retratou isso.

Enfim, sabe quando você lê um livro e tem a sensação de que só você entendeu? Que as outras pessoas, mesmo tendo lido e gostado da leitura, não entenderam completamente o que o autor quis passar? Eu me senti assim quando terminei a leitura. Claro que todo mundo conseguiu entender o livro, mas a sensação ao terminar a leitura foi de uma certa "intimidade". Não me marcou da mesma forma que Perdão, Leonard Peacock, mas a leitura valeu a pena. Matthew Quick entrou para a lista de autores que eu leria todas as obras, só pelos temas que resolve escrever.


3 comentários:

  1. Eu assisti o filme e achei bem legal, devia ter lido o livro, parece ser muito melhor, teria gostado muito mais. Parabéns, essa resenha ficou muito boa.

    Abraços!

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  2. Eu ainda não assisti o filme, mas estou completamente interessado no livro. Gostei demais que você fez essa comparação, assim vou ler o livro antes. Sempre tive curiosidade em conhecer as obras de Matthew Quick e acredito que irei começar com O Lado Bom da Vida, pois você conseguiu me convencer completamente de que é uma história incrível e eu espero que ao terminar, sinta a mesma intimidade que você sentiu. A resenha está incrível e o seu blog é lindo demais, portanto, lhe desejo todo o sucesso do mundo.

    Com amor,
    Rascunhos de Tom

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  3. Oi,Marina ♡ Fiz questão de comentar aqui,só de saber que você cursa psicologia já me fez ter um momento muito proveitoso por aqui. Eu amo psicologia e está entre a primeira opção em questão de faculdade,tem sido um tempo bom pra você?

    Confesso que sempre tive muitas indicações direcionadas a esse livro porém nunca tirei um tempo para ler ele,e eu mesmo não sabia que tinha um filme sobre o tal. Tenho medo de ler o livro e ter a sensação de que os produtores do filme tenham mudado muita coisa do livro então eu sempre fico com muito receio. De inicio pensei que fosse uma paixão psicótica mas de uma certa forma me motivou a assistir o filme!

    Beijos ♡
    reckless

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