10/04/2017

O Japonês da História das Laranjas

O Japonês da História das Laranjas - 31 de Março
Foto por Kinkate
Falei aqui das minhas conversas com estranhos, principalmente as que tive em pontos de ônibus. Hoje tive outra dessas conversas. Dessa vez, nada de técnica. E também nada de ponto de ônibus. Estava cansada, e depois de uma semana de correria, a última coisa que eu queria era engatar numa conversa com alguém que não conheço. O problema é que, às vezes você puxa conversa, às vezes a conversa te puxa.

Estava chovendo, trânsito horrível. Todo sábado tenho uma reunião pra ir. Todo sábado pego o mesmo ônibus, porque sei que uma amiga que também vai nessa reunião, vai estar nele. Não dessa vez. Sabendo que essa amiga não estaria nesse ônibus, e sabendo que o ônibus que eu normalmente pego ainda ia demorar, fiz o que faço de melhor: entrei impulsivamente no primeiro ônibus que conheço.


Sentei ao lado de um homem adulto, que deveria ter uns 40 anos. Não era muito velho, mas nem tão novo a ponto de não ter o cabelo branco. Ele tinha traços de japonês, mas imagino que deveriam ser de ascendentes distantes. Beleza. Lá estava eu, tranquilamente olhando para o nada, pensando na morte da bezerra, quando o ônibus para. Não demorei a perceber que tinha alguma coisa errada. Vários ônibus estavam parados, mais a frente, logo após o cruzamento de uma rua, que estava vazia. Fomos informados de que tinha acontecido um acidente. Era impossível dizer quanto tempo ficaríamos parados ali. Vários passageiros desceram. O motorista continuou fazendo pressão, perguntando se tínhamos certeza de que queríamos esperar, e mais gente desceu. Eu não podia fazer o mesmo. Estava longe do meu destino, e a chuva me impedia de terminar o trajeto a pé. Sem escolha, decidi que iria esperar.

O Japonês da História das Laranjas - 31 de Março
Tenho certeza que são mexericas // Foto por Ashim D’Silva
O estranho ao meu lado já estava impaciente. Ficou ainda mais quando descobriu que o ônibus não poderia simplesmente virar na rua que estava livre, que era paralela a que era o trajeto "oficial" do ônibus. O motivo? O motorista ligou para a empresa, e a empresa não permitiu a mudança. Só reforçando: as ruas eram paralelas e saiam no mesmo lugar, a única diferença é que em uma delas, tinha acontecido um acidente. Não ia fazer diferença nenhuma virar ali ou logo a frente, e o estranho fez questão de deixar isso claro. Reclamou que o motorista não deveria ter ligado, que deveria ter virado assim que percebeu o acidente, que não ia fazer diferença... e eu, diplomata que sou, sabendo que o motorista devia estar ouvindo tudo o que ele dizia, evitei concordar, apenas balançava a cabeça e dizia que não fazia diferença mesmo (e de fato, não fazia).

Até que, por fim, depois de vários minutos parados ali, sem comunicar nada com ninguém, o motorista resolve virar na rua que não foi permitido virar e seguir em frente. A rua que aconteceu o acidente ainda estava engarrafada. Depois de todo esse tempo, ele resolveu mudar o trajeto. O estranho ficou indignado. Eu também, mas para não aumentar a indignação dele, não demonstrei a minha. Ele reclamou mais um pouco de ter perdido tempo, que aquilo ia atrasar tanto a nossa vida quanto a do motorista, que se fosse pra fazer isso que era melhor ter feito logo no início, ou então esperado até o final, e, apesar de concordar com ele, já estava achando esse estranho um pouco chato.

Foi então que ele me contou a história do patrão e das laranjas, que usei para dar título ao post. Perguntou se eu já conhecia, e eu disse que não, porque achei que de fato eu não conhecia. Mas logo no início percebi que meu pai já tinha me contado essa mesma história quinhentas vezes, mas eu só me lembrava como acabava. Deixei que ele contasse assim mesmo. A história, da forma como ele me contou:

Um funcionário que trabalhava há anos numa empresa vai perguntar ao patrão porque o funcionário que acabou de entrar foi promovido, enquanto ele trabalhava ali há anos e permanecia na mesma função. O patrão diz:
— Vou lhe explicar porquê, mas antes, nós vamos receber a visita de uns empresários, naturalistas, e preciso que você vá na vendinha da esquina e me compre umas laranjas, para fazermos suco para eles.
O funcionário vai, descobre que lá não tinha laranjas e volta ao patrão para avisá-lo. O patrão chama o funcionário recém-promovido e faz o mesmo pedido a ele. O funcionário volta e diz:
— Fui e descobri que não tinha laranjas. Como os visitantes são naturalistas, e laranja tem vitamina C, trouxe mamão, morangos, limões... Conversei com o vendedor e também consegui um desconto. Se eles não quiserem o suco, não tem problema que a gente toma.
O patrão, satisfeito, diz:
— Viu? É por isso que ele foi promovido e você não.

O estranho, agora Japonês da História das Laranjas — ou Japonês das Laranjas, pra resumir — me fez um discurso sobre ter iniciativa, que eu confesso não ter prestado muita atenção, por isso não sou capaz de reproduzi-lo aqui. Foi uma bela lição de moral, e eu me lembrei que meu avô costumava dizer "um homem prevenido vale por dois", que era mais ou menos a lição que eu estava recebendo no ônibus. Após o fim do discurso, ele se vira para mim e diz: "Você tem cara de quem faz comunicação"
Ri, respondi que não, e que fazia Psicologia. Ele riu com um ar de "sabia", como se as duas áreas fossem a mesma coisa. Começou a me contar que gostaria de ter feito comunicação, mas não conseguiu devido ao horário, e que, ironicamente, anos depois cursou filosofia, no mesmo horário que o impediu de fazer comunicação. Simpatizei com ele nesse momento, e tive vontade de entender quais caminhos o levaram a estudar filosofia, no lugar da área que era seu objetivo desde o início. Se tem uma coisa que eu gosto de saber na história das pessoas é o que as levaram a tomar um rumo totalmente contrário ao que planejaram, e ver como "o que poderia ter sido" continua assombrando essas pessoas, um monte de fantasmas de uma possibilidade que não se cumpriu. Aqui abro um parêntese para dizer o quanto tenho medo de ser, um dia, a estranha que conta essa história, sonhando com um "futuro" que deveria ser o presente. Essa é a maior lição que tiro desses contatos: nunca ninguém me contou uma história do quanto se arrependia de ter feito algo que queria, a maioria se arrepende de não fazer. Eu não quero ser essa pessoa.

Continuamos a conversa sobre comunicação. O Japonês das Laranjas já estava mais bem-humorado, e me explicou que se irritava fácil, mas já tentava controlar isso há um tempo. Entendi como um pedido de desculpas pelo aborrecimento no início, e enquanto ele se "desculpava", se preparava para descer. Me despedi dele. Continuei no ônibus, seguindo meu caminho. Tive vontade de perguntar como ele acabou fazendo filosofia afinal, e o que fazia agora, depois de ter se formado. Também tive vontade de dizer a ele que ainda dava pra cursar comunicação. Não deu, e, pela minha experiência, sei que não vai dar. A gente nunca tem contato com esses estranhos de novo, resta só imaginar.

6 comentários:

  1. Que história boa de se guardar Marina! Sabe que às vezes eu também fico remoendo depois, várias outras coisas que devia ter perguntado só pra prolongar a conversa e aumentar o pouco que eu sabia da vida desconhecida do anônimo. E eu já até tinha escutado essa fábula (?) antes, mas é sempre bom ouvir de novo, num outro contexto numa conversa com um desconhecido.

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. ahahahah acho que todo mundo conhece essa fábula (?). Mas foi legal ele ter contado que ajudou a refrescar a memória XD

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  2. Olá Marina,
    Adorei ler essa sua história, me lembrou quando fiquei no ônibus num engarrafamento outro dia e uma moça veio puxando assunto comigo, e no final, quando cheguei ao meu destino já sabia praticamente uma parte da vida dela, creio eu hahah

    Abraços,
    pile of roses

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    1. hahahahaah Bia! Acho tão legal quando isso acontece, eu queria ser dessas que conta a história toda, mas ouvir é mais minha praia

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  3. Me tocou bastante esse post, me deu um tapa na cara de que preciso dar um jeito nas minhas escolhas, para depois não me arrepender do que não fiz.
    E preciso repetir que amo as suas conversas com estranhos, você deveria sair por aí colecionando mais histórias e depois colocar tudo em um livro <3.

    p.s.: AMEI as asas que você pintou na parede!!

    Com amor,
    Bruna Morgan

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    1. Eu também fico assim com minhas escolhas, mas já que a gente não pode mudar o passado, a gente tem que tentar construir um bom futuro ;)

      Desde que criei o blog uma das coisas que eu mais queria fazer era uma coluna com pessoas que eu conheci, principalmente essas pessoas que "de momento". Mas eu era tímida demais! ahahah Precisei vencer umas barreiras, e talvez eu saia por aí e faça mesmo uma coleção dessas histórias, elas tem um peso ainda maior quando lembro que antigamente eu não conseguia fazer isso.

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