04/06/2017

A Metamorfose (Franz Kafka) e a questão do sofrimento mental

A Metamorfose e Sofrimento Mental
{Arte por Autor Desconhecido}
A Metamorfose era um desses clássicos que estavam eternamente na minha lista de leitura. Sabe aqueles livros que você já ouviu falar, conhece um monte de referências e que pretende ler um dia, mas não sabe quando? A Metamorfose era um desses livros. Até que a Clayci postou no Sai da Minha Lente que A Metamorfose era um livro curtíssimo, de trinta e poucas páginas, e eu percebi que poderia ler depois do almoço. Baixei um .pdf de domínio público e engatei na leitura.

Para quem não conhece, a história é a seguinte: Gregor Samsa um dia acorda metamorfoseado num inseto monstruoso. Pela descrição do autor, tudo leva a crer que esse inseto é uma espécie de barata gigante. Uma vez metamorfoseado nesse inseto gigante, Gregor, que trabalhava para sustentar seus pais e sua irmã, fica impossibilitado de trabalhar e perde o emprego. E a história se desenrola: incapaz de trabalhar, Gregor deixa de ser "útil" para a família, que aos poucos deixa de vê-lo como o irmão e filho que era, e passa a vê-lo como o inseto que aparenta ser.

A Metamorfose e Sofrimento Mental
A Metamorfose na visão de Will Tirando
Fica claro, logo no início, a crítica por trás da situação bizarra: as pessoas só possuem utilidade quando produzem alguma coisa. Enquanto se matava de trabalhar para sustentar a família, Gregor era um membro importante do círculo familiar e tinha seu valor. Podemos presumir que era "amado" e que seus pais se preocupavam com ele. A medida que deixa de ser o provedor e a família precisa trabalhar em seu lugar, começa a tornar-se um peso, um estorvo e, embora fosse Gregor quem estivesse sofrendo, era ele quem se preocupava em esconder-se e poupar a família de vê-lo na situação bizarra. Era ele quem tinha se transformado no inseto, mas ainda assim era a família que sofria ao vê-lo e tinha medo da situação. Gregor não só tinha de suportar viver como uma barata, mas precisava também buscar diminuir o sofrimento de sua família diante da própria situação. É claro que eu fui logo pensando em alguém que está passando por um sofrimento mental. A Metaformose é um prato cheio para várias interpretações.


Depois de trabalhar anos num emprego desumano, extremamente cansativo e de se sacrificar em prol da sua família, mal consegue se levantar da cama, não vai trabalhar e perde o emprego. Sua família sente repulsa pela sua aparência, Gregor se torna cada vez mais isolado, excluído do círculo familiar. Ninguém compreende o que aconteceu - e sequer busca compreender. Com o tempo, ele passa a demandar cada vez mais cuidado, e a família tenta, a todo custo, esconder sua existência. Os hóspedes da casa não podem vê-lo, e Gregor não pode sair do quarto. Sentem vergonha de quem ele é e evitam a todo custo aceitar que o inseto gigante ainda é o mesmo Gregor. Na verdade, alguns personagens desconsideram completamente que Gregor ainda tenha sentimentos humanos. Tratam-no com violência e esperam que ele "vá embora de boa vontade", para poupá-los de viver com tal criatura dentro de casa. 

A Metamorfose e Sofrimento Mental
A Metamorfose por Eduardo Arruda
Não consegui fazer outra relação que não a do inseto como um transtorno mental. Uma pessoa fica "mentalmente" doente, deixa de ter o valor que possuía (muito relacionado ao que conseguia proporcionar as outras pessoas) e todos lhe viram as costas. De início, apenas a irmã de Gregor se preocupava em cuidar dele e tratá-lo como irmão, porém, com o tempo, até mesmo ela começa a vê-lo como inseto e alimentar ódio pelo irmão. Como bem ilustrou a Bruna em seus desenhos, é comum que as pessoas, com o tempo, se "cansem" de conviver com alguém que sofre de algum transtorno mental e comecem a alimentar certa raiva por elas. A frustração gerada por não haver "melhora" no quadro acaba por afastar as pessoas. Olhando por esse lado, A Metamorfose ilustra isso muito bem.

O isolamento de Gregor em seu quarto e a vergonha da família em expor sua presença se relacionam facilmente com o estigma da loucura. É o próprio Gregor quem procura esconder sua condição, enfiando-se debaixo do sofá, e sua família contribui com isso evitando a todo custo entrarem no quarto para vê-lo. A irmã, inclusive, sente-se grata quando ele coloca um lençol por cima de seu corpo, impedindo que ela o visse. Não só não querem ver Gregor, como também não conseguem dissociá-lo de sua condição. Ele não apenas aparenta ser uma barata, ele torna-se a barata. Mesmo que ele continue sendo o Gregor. Seus sentimentos em relação a sua família continuam os mesmos; ele ainda sente vontade de trabalhar para sustentá-los; sonha em ver a irmã no conservatório; aprecia a música que ela toca no violino; mas é visto por todos como um inseto, e é tratado como tal. Perde sua identidade, deixa de ser Gregor Samsa para ser o inseto que vive dentro do quarto, o fardo que a família precisa carregar. 

Outro ponto importante: Gregor perde completamente sua autonomia. A irmã, que se dá a autoridade para resolver todos os seus problemas, decide desde o que ele come, o mobiliário do quarto e até mesmo quando o quarto será limpo. Gregor é visto como incapaz de responder por si, ainda que em coisas pequenas (como na cena em que ele quer manter seu quadro na parede, mas a irmã quer retirar), o que acontece muito com quem sofre de algum transtorno mental. O fato de Gregor ter-se tornado um inseto não o impede de realizar muitas coisas: no primeiro capítulo é ele quem abre a porta para sair do quarto. Com o desenrolar da história, as chaves passam para o lado de fora e é a família quem decide se e quando ele pode sair do quarto. Ninguém se preocupa com sua vontade.

A Metamorfose e Sofrimento Mental
Versão do Google

Algo que me chamou bastante atenção durante a leitura é que nenhum personagem, nem mesmo Gregor, buscou alguma forma de resolver de fato o problema. Nenhum médico, cientista, biólogo ou padre foram chamados. As causas da metamorfose eram desconhecidas e assim permaneceram. Gregor se adaptou facilmente ao seu novo corpo, e em nenhum momento considerou que uma reversão poderia ocorrer. Sua família também não pensou nisso, preocupando-se apenas em se verem livres do inseto gigante. Confesso que esperei por uma solução mágica até a última linha, mas não conseguia pensar em uma forma de Gregor voltar a ter um corpo humano, se não da mesma forma que se transformou na barata ("do nada"). Foi justamente a curiosidade em saber como o livro ia acabar que me fez ler tudo de uma vez, sem fazer pausas. O fato do livro ser muito curto também contribuiu para isso.

Em suma, A Metamorfose é uma leitura direta e agradável. Mesmo sendo curta, não deixa a desejar nos detalhes e no desenrolar da narrativa. As várias possibilidades de interpretação tornam A Metamorfose o tipo de livro que você quer que todos leiam, apenas para saber como outras pessoas vão interpretar. Obviamente, a relação que fiz com a questão da saúde mental foi proposital e está totalmente interligada com o que eu vivo e estudo. Essa é a leitura que eu fiz, e uma das que mais tive prazer em fazer. Qual a sua leitura de A Metamorfose?


12 comentários:

  1. Não conheço esse livro, mas achei interessante a interpretação que você fez dele; por ser psicóloga, provavelmente acabaria fazendo a mesma interpretação que você, inclusive fiquei com curiosidade de ler, mas não gosto muito de ler em PDF, então vou tentar encontrá-lo em livro físico mesmo. A leitura parece ter feito você fazer diversas reflexões, e acho que isso é o melhor em relação a qualquer livro, quando conseguimos pensar a respeito dele e levá-lo, de alguma forma, para nossa vida, através da nossa reflexão e percepção a respeito.

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Lenise! A gente acaba "puxando" pro nosso lado né? haha' Também não gosto de PDFs, mas quando eu vejo que vou demorar mais pra comprar o livro do que lendo o PDF, leio o PDF mesmo.

      Excluir
  2. Mari, eu AMEI a sua análise, pensei as mesmas coisas quando li esse livro. Li duas vezes, na verdade, e mais dois do Kafka, ele é maravilhoso.
    Fico feliz que tenha me citado huahua e seria sim uma honra você falar dos meus desenhos *o*

    Eu já me senti muito igual ao Gregor, e ainda me sinto um pouco de vez em quando. Havia semanas em que eu não conseguia nem me levantar, e me sentia igual a um inseto. Acredito que Kafka escreveu muito sobre como se sentia. Depois leia Carta ao Pai, é uma carta que ele escreveu mesmo para o pai, que era muito rígido e frio, e que infelizmente não entregou, o pai dele nunca chegou a ler :c, eu senti que refletiu bastante esses sentimentos de inferioridade no meio familiar.

    Com amor,
    Bruna Morgan

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Bruna!

      Não tive como não citar <3 Acabo pensando em várias coisas que você escreve, levo pra vida <3

      Vou ler sim, imagino que isso ajude a entender um pouco a história desse livro né? Depois te conto o que achei.

      Bjs!

      Excluir
  3. Olá Marina! Joia?
    Muito interessante, a maneira que se abriu com o livro, tudo bem aberto.
    Essa mudança que acontece, as vezes procuro encontrar respostas para elas, pois já tive momentos assim e sei bem como é um interior de uma vida querendo viver, mas, sem poder dar um passo.

    Você disse que durante a leitura "nenhum personagem, nem mesmo Gregor, buscou alguma forma de resolver de fato o problema". - Algo que até mesmo eu, somente pela resenha, me chamou bastante atenção.

    Abraço querida!
    https://rabiscoscolorido.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Me chamou muito a atenção porque era isso que eu esperava durante a leitura. Fiquei o tempo todo pensando em como tentariam resolver a situação, mas ninguém tentou. Isso acontece muito com nossos problemas, não acha?

      Excluir
  4. Fiquei super feliz em saber que vc leu <3
    Na história podemos perceber que somos todos baratas (infelizmente).
    Eu li a história em várias fases da minha vida e é algo que mantenho na minha estante <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adoro suas indicações <3

      Eu me sinto muito "barata", às vezes. Gosto quando leituras como essa nos fazem perceber que não somos os únicos. Acho que todo mundo passa por isso, como você mesma disse.

      A Metamorfose foi uma leitura maravilhosa pra mim, obrigada por indicar! <3<3

      Excluir
  5. Que texto maravilhoso! Nossa! Adorei as matérias nos links, também, tudo muito bem feito, enfim, muito lindo.
    Eu me vejo como uma barata na minha cabeça, sabe aquele termo chamado "síndrome de vira lata"? Que pensamos que tudo no Brasil é ruim, ou tudo que é nosso é mal feito, enfim... acho que penso o mesmo sobre mim, as vezes me pego sem autonomia de escolher as próprias coisas pra mim, em situações de auto questionamento, meio que um pânico singular e sem motivo. Acontece muito com quem precisa da opinião de outras pessoas sobre si, por exemplo.

    Vou ler o livro, com certeza. Já queria, e nem sabia que era tão curtinho.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sei sim! É mais ou menos o que tá nessa tirinha aqui, não é:

      Síndrome do Figurante

      Se ler me fala o que achou ;)

      Excluir
    2. Sim, siiim.. igualzinho. Tem muito conteúdo nessa tirinha, meio que causa e consequência.

      Excluir
  6. Oi Marina, tudo bem? Ainda não tinha visto falar sobre este livro, mas parece ser empolgante. Acredito que as leituras curtas, nos prende em diversos momentos. Gostei muito da sua interpretação sobre ele.

    Beijão

    Clau

    Preguiça Literária

    ResponderExcluir

Vai comentar? Lembre-se de seguir algumas regrinhas: nada de arrumar brigas com outras pessoas, e não use palavras de baixo calão! Não diga nada que você não diria para sua avó.

Obrigada pelo comentário, vou retribuí-lo assim que puder. Volte sempre (/◕▽◕。)/