12/10/2017

Uma homenagem a perda de tempo que é a literatura

Literatura Perda de Tempo
Foto por StockSnap
Tenho um amigo que diz sentir que está perdendo seu tempo quando lê um livro de literatura. Sim, livro de literatura. Esses livros mesmo, que contam histórias, que criam mundos novos, que te levam pra lugares onde você não conseguiria ir, se não tivesse imaginação pra te levar. Esses livros que nos desafiamos a ler dez em um mês, e que fazemos maratona de leitura, porque sabemos que um bom leitor vive mil vidas antes de morrer.

Durante algum tempo, ainda um pouco deslumbrada com o universo dos livros acadêmicos, das teorias e do conhecimento aleatório sobre qualquer coisa, me deixei levar por essa ideia. E sentindo também que estava perdendo tempo, deixei os livros de literatura de lado, porque afinal, não me acrescentariam "nada" de "útil". Eu caí no velho dilema da utilidade, do sentido e do propósito.

Nesse momento, você, que é leitor (e leitora) e que acompanha minhas abobrinhas há anos, acostumado a ler Douglas Adams todo Dia da Toalha, me olha com descrédito diante de tamanha desonra. Sim, desonra, pra tua vaca e pra tua família, e que Mushu me perdoe. Você olha e se pergunta como eu pude me tornar herege e acreditar nessa bobagem. Como tornei isso possível, não sei dizer, mas por sorte, a literatura sempre nos traz de volta.

Uma ficção aqui, outra ali, entre um clássico e outro da literatura — finalmente li A metamorfose e O Médico e o Monstro — eis que resolvo reler A sombra do vento (saudades Zafón <3). E não é que eu estava carregando esse livro só pra tentar convencer o amigo em questão de dar uma chance pra ele? Sentei um minutinho pra relembrar a história, antes de (tentar) fortalecer o espírito do livro o trocando de mãos, e eis que eu estava de volta a Barcelona com Daniel Sempere e O Cemitério dos Livros Esquecidos, e eis que também me lembrei do prazer de ler uma história.

Já dizia Fernando Pessoa que a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida, e usando A sombra do vento como escapismo puro e simples, percebi o quanto sentia falta de mergulhar em uma leitura, sem a pretensão de aprender alguma coisa, sem a pressão de absorver algum conteúdo, e principalmente ler sem me preocupar se eu entendi ou não o último parágrafo. Ler apenas, sem nenhuma cobrança ou preocupação.

Pegando A Sombra do Vento depois de tantos anos, reencontrei não só as palavras de um autor que eu admirava, como também uma velha versão de mim, crescendo no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó... Quem perdeu tempo lendo Zafón vai reconhecer a citação, assim como quem perdeu tempo lendo Conan Doyle vai entender que não devemos nos entulhar com conhecimento que não nos vai ser útil. Entendendo ou não a constante cosmológica da equação de campo de Einstein, ela não vai se alterar. Não vejo utilidade em absorver esse conhecimento, e entre uma perda de tempo e outra, prefiro a perda de tempo que eu gosto.

Nós, leitores, já compreendemos que a literatura é uma mentira que fala a verdade, que não tem bichos na Quinta Manor e que Jekyll e Hyde somos nós mesmos. Já sabemos que faz parte da humanidade contar uma história, e que desde a Pré-história, é assim que aprendemos. A gente entende a literatura que fala do coração e da alma, e que, se conhecer um Hobbit que sai pra viver uma aventura; acompanhar uma menina que rouba livros em meio a um cenário de guerra; rir de um mochileiro que viaja pelas galáxias; questionar o sistema com um clube clandestino de luta é perda de tempo, então, esse tempo vale a pena ser perdido. E eu continuarei, com orgulho, perdendo meu tempo com literatura. 


6 comentários:

  1. A Literatura é a melhor forma de "perder tempo" que há! Se perder entre as páginas de uma boa história, se emocionar, se encantar, se reconhecer e se envolver com uma personagem, uma história... não tem modo melhor de se perder!!!

    Amei seu texto ^^ E vamos continuar perdendo nosso tempo com algo tão gostoso quanto a leitura *-*
    Beijinhos
    Isabelle - http://attraverso-le-pagine.blogspot.com.br

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    1. Concordo em gênero, número e grau hhehehehe'

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  2. Mulher, como vão as coisas? e os projetinhos? Saudades de aparecer por aqui com seus textos adoráveis. Te dei uma stalkeada no Instagram haha. - Eu amo perder tempo com literatura, ai mds é uma ótima maravilhosa perda de tempo. Perco sempre! E também como você Mari, não canso.
    Harmonizar, beijos!

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    1. Stalkeie a vontade, só não repara a desordem rsrs

      Obrigada pelo carinho <3

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  3. Esse texto deveria tá numa coluna de jornal, meu Deus. O último parágrafo é espetacular. Pra gente, que te lê já faz um tempinho, apesar dos intervalos, é muito fácil perceber como sua escrita ficou tão mais rica e suave. É maravilhoso, Marina!

    Eu concordo com você. Sabe, minha relação com a utilidade é uma briga constante, sempre me questiono o quanto aquilo é produtivo pra mim, e já cheguei nesse nível, de questionar a literatura. Entregar-me o suficiente aos livros acadêmicos pra isso, me fez pensar o quanto os dias são menores, e as metas são maiores. A verdade é que os livros tornam dias em semanas, momentos em eternidades, parece que nossa experiência com a vida se amplia de uma forma que, não tem muito mais pra se fixar de forma robótica, e sim de interiorizar de forma mais leve e esclarecedora. Os dias ficam mais leves, pois tem outros dias maravilhosos dentro dele, que vem em cada página de um bom livro de literatura. Às vezes até em uma pequena frase sobre um longo questionamento.

    Aah, esse texto me deu até vontade de começar um livro novo!

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    1. Ahhh Pedro ♥

      Comparando com os primeiros textos que eu escrevia por aqui, acho que dei uma melhorada sim, né? Lembro que não conseguia escrever nem um parágrafo. Mas ainda tenho muito caminho pela frente :D

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