30/10/2017

Ser oco

Ser oco
Foto por 56April
Caminhava pelo parque, sozinho. O vento passava direto. Não batia em seu rosto. O perfume das flores à sua volta não impregnava suas roupas. O canto dos pássaros lhe era indiferente. O calor do sol, tão brilhante e vivo, não tocava sua pele. Tudo trespassava seu corpo. Nenhum estímulo o afetava. Apesar do tom opaco e frio de sua pele, o homem não era um fantasma. Ao contrário, como todo o mundo, era feito de carne, embora fosse oco por dentro. Cobria-se com grossas camadas de roupa e usava uma máscara discreta, que lhe cobriam as feições. Temia que seu verdadeiro rosto pudesse deixar transparecer aquilo que ele realmente era. Temia que se o olhassem nos olhos —  olhassem verdadeiramente em seus olhos — pudessem ver que por trás deles não havia nada. O nada o assustava. Parecia lhe corroer. Doía, e apontava algo que ele não sabia como preencher. Todos os outros eram feitos de carne e osso, mas ele era composto por nada. 

Como era possível? Como era possível que, mesmo sendo feito de nada, sentisse como se algo o corroesse por dentro? Ser vazio parecia tomar todo seu espaço. Ser vazio o consumia, como se o vazio constituísse algo por si só. Poderia alguém assim existir?

Desejava ser como as outras pessoas. Não que ele fosse único, mas porque ele era ele, e queria deixar de ser. Desejava ter o que os outros tinham, mas não sabia se os outros tinham algo. Seriam todos ocos, e assim como ele, cobriam-se com máscaras e disfarces? Seriam todos vazios, e fingiam carregar algo dentro de si? Não sabia dizer. Sabia que, por mais que quisesse, por mais que desejasse, não teria outra possibilidade: só poderia ser. E assim seria.

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