05/02/2018

“Encontro-me dentro da minha própria mente, mas trancada em casa errada”

Foto de Anne Sexton em preto e branco, apoiando o braço em uma mesa

A frase do título do post é do poema "A prayer", do livro "For the year of the insane", de Anne Sexton. Conheci sua poesia no filme "O Mínimo Para Viver" e fiquei tão tocada que resolvi procurar por outras. 

Anne Sexton, apesar de ter ganhado um Pulitzer em 1967, não possui nenhuma obra publicada em português. Ela nasceu em Massachusetts, em 1928, e ao longo da vida, teve várias tentativas de suicídio, além de episódios de internação em hospitais psiquiátricos e um histórico de abuso de substâncias e dependência alcoólica. Em 1956, seu psiquiatra recomendou que ela escrevesse poesia, como uma forma de lidar com suas crises depressivas. Anne escreveu vários poemas e publicou vários livros até o ano de sua morte, em 1974, quando cometeu suicídio por intoxicação de monóxido de carbono, ao se trancar na garagem com o motor de seu carro ligado. Quem tiver interesse, a história de Anne foi contada com mais detalhes por David Furtado

Achei simplesmente lamentável que nenhum livro de Anne tenha sido publicado em português. Apesar disso, ainda conseguimos encontrar vários de seus poemas traduzidos pela internet. Acredito que seja desnecessário fazer uma introdução aos poemas de Anne, eles falam por si só! Selecionei alguns que me tocaram e que gostaria que todos conhecessem:

CORAGEM - Anne Sexton


É nas pequenas coisas que a vemos.
O primeiro passo da criança,
tão incrível como um terremoto.
A primeira vez que você andou de bicicleta,
desequilibrando-se pela calçada.
A primeira surra, quando seu coração
saiu sozinho em viagem.
Quando o chamaram de bebê chorão
ou pobre ou gordo ou maluco,
e o tornaram um completo estranho,
você bebeu aquele ácido
e o ocultou.

Mais tarde,
se você enfrentou a morte das balas e bombas,
não o fez com um estandarte,
mas apenas com um chapéu para
cobrir seu coração.
Você não afagou sua fraqueza
embora ela estivesse ali.
Sua coragem era um carvão
que você continuou engolindo.
Se seu camarada o salvou
e morreu fazendo-o,
então aquela coragem não era coragem,
mas amor; amor tão simples como espuma de barbear.

Mais tarde,
se suportou um grande desespero,
você o fez sozinho,
recebendo uma transfusão do fogo,
raspando as crostas de seu coração,
e então o arrancando feito uma meia.
Depois, meu irmão, você pulverizou sua pena,
fez-lhe uma massagem nas costas,
então a cobriu com uma manta
e, após haver dormido um pouco,
ela acordou para as asas das rosas
transformada.

Mais tarde,
quando tiver de encarar a velhice e a natural conclusão,
sua coragem ainda se mostrará nas pequenas coisas,
cada primavera será uma espada que você afiará,
aqueles que você ama viverão em febres de amor
e você barganhará com o calendário
e no último instante,
quando a morte abrir a porta dos fundos,
você vai calçar suas pantufas
e sair.


O poema acima é recitado no filme O mínimo para viver, filme que retrata a vida de adolescentes lutando contra anorexia. O filme é incrível e vale muito a pena assistir também!

PARA JOHN, QUE ME SUPLICA QUE NÃO PROSSIGA O MEU INQUÉRITO - Anne Sexton


Não é que fosse belo,
mas, no final, havia
uma certa sensação de ordem ali;
algo que merecia ser aprendido
naquele limitado diário da minha mente, 
nos lugares-comuns do hospício 
onde o espelho quebrado
ou a minha própria morte egoísta 
me olhavam na cara.
E se eu tentasse
dar-te outra coisa qualquer,
algo exterior a mim,
não saberias
que o pior de toda a gente
pode ser, por fim,
um acidente de esperança.
Dei leves pancadas na minha cabeça;
era vidro, uma taça invertida.
É uma coisa de nada
enraivecermo-nos na nossa própria taça.
De início, era privado.
Depois extravasou;
eras tu, ou a tua casa
ou a tua cozinha.
E se virares as costas
por não encontrares aqui qualquer lição
segurarei a minha grosseira taça,
com todas as suas estrelas fendidas brilhando
como uma mentira complicada,
e aplicarei uma nova pele em redor dela
como se enfeitasse uma laranja
ou um sol estranho.
Não é que fosse belo,
mas encontrei qualquer ordem ali.


Ilustração por Shannon Levin


NA COMPANHIA DE ANJOS - Anne Sexton


Eu estava farta de ser mulher,
farta das colheres e das panelas,
farta da minha boca e dos meus seios,
farta dos cosméticos e das sedas.
À minha mesa ainda havia homens,
ao redor da tigela que eu ofertava.
A tigela estava repleta de uvas purpúreas,
e as moscas pairavam por causa do aroma
e até meu pai veio com seu osso branco.
Mas eu estava farta do gênero das coisas.

Ontem à noite tive um sonho
e disse-lhe …
“Tu és a resposta,
Tu viverás mais que meu marido e meu pai.”
Nesse sonho havia uma cidade feita de correntes
onde Joana foi dada à morte em roupas de homem
e onde a natureza dos anjos não se explicava,
nenhum da mesma espécie,
um com um nariz, outro com uma orelha na mão,
um mascando uma estrela e gravando sua órbita,
cada qual como um poema que obedecesse a si próprio,
executando as funções de Deus,
um povo à parte.

“Tu és a resposta”,
disse eu, e entrei,
deitando-me nos portões da cidade.
Então fui presa com correntes
e perdi meu gênero comum e meu aspecto final.
Adão estava à minha esquerda
e Eva à minha direita,
ambos de todo inconsistentes com o mundo da razão.
Entrelaçamos os braços
e galopamos sob o sol.
Eu já não era mulher,
nem uma coisa nem outra.

Oh filhas de Jerusalém,
o rei me trouxe para seus aposentos.
Sou negra e sou bela.
Fui aberta e despida.
Não tenho braços nem pernas.
Sou uma só pele, como peixe.
Sou tão mulher
quanto Cristo era homem

Tradução: Renato Marques de Oliveira


Mais poemas podem de Anne Sexton podem ser lidos na Revista Prosa, Verso e Arte e no site do David Furtado

10 comentários:

  1. Oii Marina, tudo bom? Ahhh Poemas meu gênero favorito, que mulher, que palavras... simplesmente adorei... Amei conhecer um pouquinho das obras desse talento.

    Um beijo

    Claudia

    Preguiça Literária

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    1. Oi Claudia! Gosto também, passa uma sensibilidade tão grande né? <3

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  2. Olá Marina, tudo bom com você?
    É uma coisa impressionante esse negócio de escrever poesias para lidar com os sentimentos. Não que eu tenha tido uma situação tão crítica quanto a da Anne, mas desde meus 10 anos eu escrevo poesias porque eu sou fechada com as pessoas. Não adianta como um todo, mas alivia. Pena que a dor dela foi mais forte.
    Eu gosto muito desse tipo de poema não padrão. Sem rimas (de repente por conta da tradução), como uma história ritmada sem se preocupar com simetria, somente no que se quer expressar.
    Livros de poemas (principalmente internacionais) não costumam se propagar muito aqui no Brasil, uma pena.

    Foi um prazer conhecer seu blog. Um grande abraço.
    Kami - Um pouco clichê

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    1. Oi Kami! Eu escrevo pelo mesmo motivo que você, só que prefiro prosa, não sou boa com poesia rs

      Eu não nenhum poema dela em inglês (dei uma olhada em uns), mas acredito que não tem rimas mesmo não. Acredito que assim o autor ou autora tenha até mais liberdade pra escrever.

      Bjs!!

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  3. Mari, eu não a conhecia e fiquei triste pela sua história.
    Acho uma pena não ter nada dela por aqui =/, pois esses poemas são lindos.
    Adorei saber sobre ela aqui no seu blog =D

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    1. São sim! Uma pena mesmo que não seja tão conhecida, não é? A gente ainda tem muito o que avançar em termos de literatura no Brasil

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  4. caramba, eu não conhecia NADA dela! que coisa mais linda!

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    1. Eu também não Isa! Fiquei curiosa quando vi no filme O mínimo para viver, porque a frase do poema Coragem não saía da minha cabeça. Uma pena que ela não é muito conhecida :(

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  5. É bom que as pessoas se interessem por Anne Sexton e fico satisfeito. Obrigado também por me ter dado o crédito da tradução e link - coisa rara na Internet nos tempos que correm. Parabéns pelo seu interesse pela escrita.

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    1. Oi David! Que legal ver você aqui haha'

      Pois é, algumas pessoas acham que o que está na internet não tem dono. Linkar pra site da pessoa é o mínimo que se pode fazer né, já que (querendo ou não) estamos copiando parte de um conteúdo que não é nosso.

      Agradeço a visita ♥

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